quarta-feira, 2 de maio de 2018

Os limites da comédia



© Ana Rita Guerra, DN 1/5/18, p. 40. Acessível aqui.
Deviam ter feito mais pesquisa antes de me pedirem para fazer isto", lançou a comediante Michelle Wolf, antecipando a reação ao que iria dizer no tom de voz arrastado com que fez implodir a Gala dos Correspondentes da Casa Branca. A sala, cheia da elite de Washington, DC, titubeou entre os olhos arregalados, o silêncio e o escapar de expressões de espanto. Não houve gargalhadas gerais, porque Michelle Wolf rebentou com toda a gente neste número de stand-up que ficará para a história.

 
Os meios de comunicação foram um dos principais alvos de Michelle Wolf, de forma bastante certeira. "Vocês estão obcecados com Trump. Namoraram com ele? Porque fingem que o odeiam mas penso que o amam. Ninguém nesta sala quer admitir que Trump vos ajudou a todos", atirou. "Ele ajudou-vos a vender jornais e livros e televisão. Vocês ajudaram a criar este monstro e agora estão a lucrar com ele." Wolf fez piadas com a CNN, a Fox News e a MSNBC. Também passou pelos democratas, dizendo que era difícil gozar com eles porque "nunca fazem nada."
 
No entanto, a maior torrente de críticas vai para os comentários feitos sobre a porta-voz da Casa Branca Sarah Huckabee Sanders e a conselheira presidencial Kellyanne Conway. "Adoro-a como Aunt Lydia em The Handmaid"s Tale", disse sobre Sanders, referindo-se à odiosa personagem que controla as mulheres férteis na série da Hulu. "Gosto da Sarah. Acho que é engenhosa. Ela queima os factos e usa a cinza para criar um perfeito olho esfumado." Wolf referia-se à forma como Sanders manipula os factos nas conferências de imprensa, mas por algum motivo muita gente assumiu que estava a fazer pouco do seu aspeto físico.
 
Sobre Kellyanne, pediu que deixassem de a convidar para programas televisivos. "Tudo o que ela faz é mentir", apontou. "É como aquele velho ditado, se uma árvore cair na floresta, como é que pomos a Kellyanne lá debaixo? Não sugiro que se magoe, apenas que fique presa. Presa debaixo de uma árvore."
 
Donald Trump foi um alvo frequente, claro, mas há pouco que uma comediante possa dizer agora sobre ele que ainda surpreenda. As anedotas passaram por Ivanka Trump, "tão útil para as mulheres como uma caixa de tampões vazia", o vice-presidente Mike Pence, Paul Ryan, o caso Stormy Daniels e outros temas da política americana.
 
"Sei que muitos de vocês são super antiaborto, a não ser que seja para a vossa amante secreta", disse, causando apoplexias aos conservadores antiaborto na sala. As críticas têm vindo sobretudo da direita, mas também de liberais e jornalistas, que consideraram a performance de mau gosto e inapropriada. É preciso uma dose significativa de hipocrisia para despejar esta indignação em cima de Michelle Wolf, uma comediante que foi contratada para fazer exatamente o que fez numa gala em que se celebrou a liberdade de expressão.

Dizer que há uma linha de decência que não deve ser ultrapassada numa gala como esta até podia ser válido - se Donald Trump não tivesse apagado todas as linhas. Se não tivesse chamado cadelas a mulheres, se não tivesse feito pouco do aspeto de Hillary Clinton, se não tivesse gozado com pessoas com deficiências, numa lista de insultos gratuitos e constantes com os quais muita da gente que está hoje ofendida foi conivente. O que está a acontecer nesta Casa Branca não é normal e o próprio presidente não foi à gala porque odeia (quase) toda a imprensa.


O número ofensivo de Michelle Wolf encaixa-se bem nesta era do pós-politicamente correto por que clamaram os apoiantes de Trump. As pessoas queriam o direito de dizer o que pensam sobre gays, imigrantes e outras raças e maravilharam-se com a falta de filtro de Trump. Só que não querem que lhes façam o mesmo.
 

Temos, como animais políticos, esta natureza de não dar ao outro lado o benefício da dúvida que consignamos ao nosso. É isso que torna esta guerra cultural tão consequente na política: a ideia que as nossas críticas são todas aceitáveis e que as dos outros são todas horríveis. De que devemos poder dizer o que queremos sobre os outros, mas ai de quem nos "falte ao respeito". Se este é um país que escrutina com maior ferocidade o que uma comediante diz do que o que presidente faz, para a próxima convidem um mimo.



Questões:
1) Por que motivo houve quem achasse pessoalmente ofensiva a piada sobre Sarah  Huckabee?
2) A palestra foi «de mau gosto e inapropriada»? Diga porquê.
3) Estaremos mesmo «no pós-politicamente correto»? E isso significa o quê?
4) O que é (ou foi) «o politicamente correto«? Um movimento? Uma ditadura? Etc.?
5) Há uma guerra cultural em curso? (Por exemplo, o mundo do futebol está a ser contaminado pelo mundo exterior ou será o contrário? O que é feito da capacidade de diálogo?)

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Aula de 30/4

Ana Carolina: Gervais e o PC.

Quem diz? Quando, onde, como, porquê?
(Sim, a intenção conta)

Tim Minchin: ''Prejudice'. Aqui.
E um texto sério (cada vez mais me convenço de que só os humoristas falam a sério) aqui.

Jeremy Irons e a dinâmica útil/inútil.





segunda-feira, 23 de abril de 2018

Punk

«Não sei tocar, mas vou formar uma banda.»
«Não tenho futuro? Tudo bem.»

Os Sex Pistols sãop os meus favoritos, sobretudo pela inteligência, cultura, educação e humor do seu vocalista. Aqui uma reunião que abre com uma improvável canção patriótica.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Algumas ligações interessantes

Sobre o Kitsch e o Camp:

Susan Sontag, Notes on Camp: aqui.
Queen: «I want to break free». aqui.
Freddy Mercury e Montserrat Caballe: «Barcelona» aqui.

Tony Carreira: «A saudade de ti» aqui.  E «Não desisto de ti» aqui.
Jean Carreira: «Sonho de Natal» aqui. E «Não sofras, pai» aqui.

Ena Pá 2000: «Drógádo» aqui.

Phantom of the Paradise: «We need a man» aqui.

We need a man that is simple perfection
There's nothing that's harder to find
Someone to lead us protect us and feed us
And help us to make up our minds
We need a man that's sophisticated
Quiet and strong and well educated
Where to go what to do
Could it be somebody super like you
We need a man that can stand as a symbol
And symbols have got to be tall
Someone with taste and the tiniest waist
With his help would not life be a ball
If we had fun he would not restrain us
If we got caught he would just explain us
Where to go what to do
Could it be somebody super like you (...) continua aqui. 

Monty Python.
«Christmas in Heaven» aqui.
[Spoken:]
Good evening ladies and gentlemen.
It's truly a real honourable experience to be here this evening.
A very wonderful and warm and emotional moment for all of us.
And I'd like to sing a song for all of you.

It's Christmas in Heaven
All the children sing
It's Christmas in Heaven
Hark hark those church bells ring

(...) [Resto da letra aqui.]

«Every sperm is sacred» aqui.  





Frank Zappa aqui

sábado, 7 de abril de 2018

The Antidote | Antídoto [Apresentação de Daniel Lucindo]

Não, o título não é uma referência a uma tradução. Na verdade, são dois títulos de duas obras diferentes. Passo a explicar:

Em 2003, a banda portuguesa Moonspell aliou-se ao escritor José Luís Peixoto com uma proposta: "E se fizéssemos um livro e um disco como nunca se fez?"

E fizeram. O resultado foi o álbum The Antidote e a novela de contos Antídoto.

TheAntidote Cover 200.jpg          Antídoto.jpg

Esta Segunda-feira vou fazer uma apresentação sobre o processo de criação das duas obras e sobre o resultado da simbiose entre as duas formas de arte. Existe um conceito em comum entre ambas as obras, conforme os títulos indicam: um antídoto. Logicamente, um antídoto pressupõe a existência de um veneno. Nenhuma das obras é o veneno ou antídoto uma da outra. Pelo contrário, complementam-se. Em ambas existe um veneno que as contamina e uma busca por um antídoto que lhes dê um sentido.

Cada faixa do álbum deu origem a um "conto-irmão" no livro. Para os que não apreciam o género no qual os Moonspell se inserem, tal como para os que não apreciam o estilo de escrita do autor - ou até mesmo para quem não gosta nem duma coisa nem doutra -, é interessante (na minha opinião) ver que o álbum por si só faz sentido, que o livro por si só faz sentido, mas sobretudo que a junção das duas obras ganha todo um novo sentido. Não é uma colaboração "à frente do seu tempo" (é um pouco surpreendente que seja um tipo de colaboração inédito, se é que de facto o é), mas é uma colaboração que, dentro do meio artístico, peca por ainda hoje ser única, ou quase.

O álbum tem uma duração pouco inferior a uma hora e as 87 páginas (sem tirar aquelas que se contemplam em poucos segundos) podem ser lidas num período igualmente curto. Isto porque cada conto foi feito quase à mesma medida da duração de cada faixa (nalgumas é, inclusive, perfeitamente possível começar e acabar a leitura e audição no mesmo período de tempo), o que confere uma atmosfera própria e apropriada a cada conto, proporcionando uma experiência practicamente única de leitura. Isto porque em vez do leitor se deixar inebriar pelas palavras e criar na sua cabeça a sua própria atmosfera, o álbum apresenta a sua própria atmosfera a acrescentar às histórias.


Deixo em baixo os títulos dos temas e dos respectivos contos. Para os curiosos, deixo o link para audição do álbum na íntegra via YouTube (a descrição do vídeo contém os tempos para cada faixa, caso queiram só ir ouvindo bocados de uma ou outra). Quanto ao livro... Digamos que foi complicado para mim próprio tê-lo nas mãos. Deixo, porém, um link para um vídeo com a leitura de um excerto do conto "Lunar" por parte do próprio autor - é pouco, mas é o que se pode arranjar.
Durante a apresentação planeio também ler um excerto ou dois e, caso haja tempo, fazer uma experiência de leitura dum conto na íntegra em simultâneo com a reprodução da faixa respectiva.


  • The Antidote
    Antídoto


  1. In and Above Men
    Dentro e Sobre os Homens
  2. From Lowering Skies
    Os Céus Que Desciam Sobre Nós
  3. Everything Invaded
    Aquilo Que Invade os Homens
  4. The Southern Deathstyle
    Sul
  5. Antidote
    Antídoto
  6. Capricorn at Her Feet
    Capricórnio a Seus Pés
  7. Lunar Still
    Lunar
  8. A Walk on the Darkside
    Caminhar
  9. Crystal Gazing
    Cristal
  10. As We Eternally Sleep on It
    Ao Adormecermos Eternamente

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Para que serve a literatura?

Hoje em dia, mais que nunca, para nada. Hoje em dia, mais que nunca, para tudo.
Um caso exemplar aqui: o aumento de reacções ingénuas e desinformadas a informação não-credível.
(ou seja, informação que não só não é informação como, bem mais sério, é o oposto da informação.)

Saber ler, num mundo cheio de coisas escritas e ditas e presentadas, crucial é. Se calhar.

A ironia torna-se então um utensílio fundamental: questionar o que nos é dado. O excesso de ironia pode (como acontece com a paródia, tipo Irmãos Catita e música pimba ou Tony Carreira e David Carreira) virar uma paródia inofensiva e, em quase nada, se distinguir do produto real.

Perceber que não só a linguagem verbal como as outras têm as suas figuras de estilo, a sua organização retórica e que «the medium is the message» mas também «the medium is the massage» (ambas cunhadas por Marshall McLuhan) talvez valha a pena. Para ver melhor.

Quando é que 'pensar fora da caixa' virou slogan vazio?


[Continua - dê a sua opinião]

A máquina policial



(Jo Nesbø, Sangue na Neve. Lisboa: Dom Quixote, 2018)


Uma máquina de redundância. Um conto de cavalaria: o cavaleiro é enviado pelo rei a enfrentar o dragão. As infinitas variantes: o narrador é o assassino, o o detective é uma mulher, o dragão é o herói, etc. Mas a matriz está lá e é tão simples quão eficaz: X é enviado por Y a enfrentar W e, pelo caminho, tem adjuvantes e oponentes. 
Há uma sensação reconfortante em ter um 'thrill', uma emoção, um arrepio, na segurança do lar. Como dizia um anúncio inglês a contos policiais na rádio: «Nada como um bom pequeno crime à hora do chá». 
Os protagonistas viram familiares, família, e os processos repetem-se, embora sempre com novas personagens e situações. Mas os ingredientes são sempre os mesmos. 
O prazer tem como base a repetição + a aparência de inovação.  



Exame - 20/6, sala B 0.6, 14h

O exame de melhoria e/ou final será dia 20 e não 18, conforme fora inicialmente anunciado. Quem tiver algum problema, contacte-me.