© Ana Rita Guerra, DN 1/5/18, p. 40. Acessível aqui.
Deviam ter feito mais pesquisa antes de me pedirem para fazer isto",
lançou a comediante Michelle Wolf, antecipando a reação ao que iria dizer no
tom de voz arrastado com que fez implodir a Gala dos Correspondentes da Casa
Branca. A sala, cheia da elite de Washington, DC, titubeou entre os olhos
arregalados, o silêncio e o escapar de expressões de espanto. Não houve
gargalhadas gerais, porque Michelle Wolf rebentou com toda a gente neste número
de stand-up que ficará para a história.
Os meios de comunicação foram um dos principais alvos de Michelle Wolf, de
forma bastante certeira. "Vocês estão obcecados com Trump. Namoraram com
ele? Porque fingem que o odeiam mas penso que o amam. Ninguém nesta sala quer
admitir que Trump vos ajudou a todos", atirou. "Ele ajudou-vos a
vender jornais e livros e televisão. Vocês ajudaram a criar este monstro e
agora estão a lucrar com ele." Wolf fez piadas com a CNN, a Fox News e a
MSNBC. Também passou pelos democratas, dizendo que era difícil gozar com eles
porque "nunca fazem nada."
No entanto, a maior torrente de críticas vai para os comentários feitos
sobre a porta-voz da Casa Branca Sarah Huckabee Sanders e a conselheira
presidencial Kellyanne Conway. "Adoro-a como Aunt Lydia em The
Handmaid"s Tale", disse sobre Sanders, referindo-se à odiosa
personagem que controla as mulheres férteis na série da Hulu. "Gosto da
Sarah. Acho que é engenhosa. Ela queima os factos e usa a cinza para criar um
perfeito olho esfumado." Wolf referia-se à forma como Sanders manipula os
factos nas conferências de imprensa, mas por algum motivo muita gente assumiu
que estava a fazer pouco do seu aspeto físico.
Sobre Kellyanne, pediu que deixassem de a convidar para programas
televisivos. "Tudo o que ela faz é mentir", apontou. "É como
aquele velho ditado, se uma árvore cair na floresta, como é que pomos a
Kellyanne lá debaixo? Não sugiro que se magoe, apenas que fique presa. Presa
debaixo de uma árvore."
Donald Trump foi um alvo frequente, claro, mas há pouco que uma comediante
possa dizer agora sobre ele que ainda surpreenda. As anedotas passaram por
Ivanka Trump, "tão útil para as mulheres como uma caixa de tampões
vazia", o vice-presidente Mike Pence, Paul Ryan, o caso Stormy Daniels e
outros temas da política americana.
"Sei que muitos de vocês são super antiaborto, a não ser que seja para
a vossa amante secreta", disse, causando apoplexias aos conservadores
antiaborto na sala. As críticas têm vindo sobretudo da direita, mas também de
liberais e jornalistas, que consideraram a performance de mau gosto e
inapropriada. É preciso uma dose significativa de hipocrisia para despejar esta
indignação em cima de Michelle Wolf, uma comediante que foi contratada para
fazer exatamente o que fez numa gala em que se celebrou a liberdade de
expressão.
Dizer que há uma linha de decência que não deve ser ultrapassada numa gala como esta até podia ser válido - se Donald Trump não tivesse apagado todas as linhas. Se não tivesse chamado cadelas a mulheres, se não tivesse feito pouco do aspeto de Hillary Clinton, se não tivesse gozado com pessoas com deficiências, numa lista de insultos gratuitos e constantes com os quais muita da gente que está hoje ofendida foi conivente. O que está a acontecer nesta Casa Branca não é normal e o próprio presidente não foi à gala porque odeia (quase) toda a imprensa.
O número ofensivo de Michelle Wolf encaixa-se bem nesta era do pós-politicamente correto por que clamaram os apoiantes de Trump. As pessoas queriam o direito de dizer o que pensam sobre gays, imigrantes e outras raças e maravilharam-se com a falta de filtro de Trump. Só que não querem que lhes façam o mesmo.
Temos, como animais políticos, esta natureza de não dar ao outro lado o benefício da dúvida que consignamos ao nosso. É isso que torna esta guerra cultural tão consequente na política: a ideia que as nossas críticas são todas aceitáveis e que as dos outros são todas horríveis. De que devemos poder dizer o que queremos sobre os outros, mas ai de quem nos "falte ao respeito". Se este é um país que escrutina com maior ferocidade o que uma comediante diz do que o que presidente faz, para a próxima convidem um mimo.
Questões:
1) Por que motivo houve quem achasse pessoalmente ofensiva a piada sobre Sarah Huckabee?
2) A palestra foi «de mau gosto e inapropriada»? Diga porquê.
3) Estaremos mesmo «no pós-politicamente correto»? E isso significa o quê?
4) O que é (ou foi) «o politicamente correto«? Um movimento? Uma ditadura? Etc.?
5) Há uma guerra cultural em curso? (Por exemplo, o mundo do futebol está a ser contaminado pelo mundo exterior ou será o contrário? O que é feito da capacidade de diálogo?)
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