quarta-feira, 30 de maio de 2018

Notas da frequência

Elena Alpa - 15
Catarina Matos - 15
Daniel Lucindo - 17
Diana Almeida - 15
Guilherme Santos - 16,5
Inês Veiga - 15
Margarida Enes - 16
Carolina Rodrigues - 14, 5
João Batista - 16
João Ramalho - 15
Moritz Hell - 16
Nuno Vicente - 14
Sofia Santos - 16
Rubina Aguiar - 13
Vânia Ramos - 14
Vasco Damas - 14


sábado, 26 de maio de 2018

Segunda 28 não há aula

Por motivo de deslocação do docente à feira do livro do fun Funchal.

Sobre Nerve e o seu álbum «'Trabalho & Conhaque' ou 'A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança'»


I think the most important thing about music is the sense of escape

Thom Yorke

Esta afirmação de Thom Yorke, como qualquer outra asserção relativa à Música - ou à Arte, de forma generalizada -, pode ser discutida. Já falámos, durante as aulas, de como a Literatura - os livros que lemos, os filmes que vemos, as músicas que ouvimos ou uma data de outras coisas que fazemos - pode constituir uma ferramenta para nos relacionarmos melhor com o mundo. No entanto, isso não é um dado adquirido. A literatura tanto pode ajudar-nos a dissecar os nossos medos como a reavivá-los. O Luís Pacheco disse que leu muito e foi pior. Se calhar leu demais, como diz a minha mãe. (Não estou a culpar a Literatura. As ferramentas, por si só, não valem tudo. Há que saber, ou aprender, a usá-las.) 

Da mesma forma, também não é garantido que a Literatura - ou a Música, ou a Arte - nos permitam essa sensação de escape de que fala o vocalista dos Radiohead. (Ainda no outro dia fiquei chateado com ele. Deitei-me, pus um dos meus poemas preferidos a tocar, e, para meu espanto, não me levou para lado algum. Já me passou. Acho que não me levou porque eu não estava a ver nenhum sítio, no momento, para onde quisesse ir.) Talvez não seja a sensação de escape a coisa mais importante que a Música ou a Arte possibilitam, mas tendo a concordar que será, talvez, aquilo que oferecem imediatamente, numa primeira instância, quando o mundo parece tão assustador que é preciso emergir dele antes de voltar a mergulhar.

É com uma fuga do mundo, para a Cidade Perfeita, que começa o álbum de Nerve sobre o qual realizarei a minha apresentação, na próxima quarta-feira. O escritor/poeta/rapper sabe que terá de voltar. No entanto, diz que não precisa de viver lá. Basta-lhe "ir lá de vez em quando". Talvez não se possa exigir mais do que isso à Arte. Umas vezes ajuda-nos a viver no mundo, e outras, a fugir dele. Mas se o regresso é inevitável,qual a utilidade de viajar? Passa-se o tempo - para muitos, a unidade base da música -, o que é bem melhor que esperar que seja ele a passar-nos. Quando se espera, a tendência é que nos diga: 'passe você, que vai mais carregado'. Aí, instala-se o tédio. E já se sabe que a melancolia consegue cheirar o tédio a quilómetros. É aí que uma saída para outro mundo, mesmo sendo a estadia efémera, se apresenta como solução. A perseguição ao tédio não dá tempo à melancolia para esperar muito pelo regresso de ninguém.

Não vou poder mostrar em aula, face à gestão de tempo que terei de fazer, grande parte do álbum. Todas as faixas estão no Youtube, pelo que quem quiser pode ouvir, antes ou depois de quarta-feira, todo o álbum.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Vai, Carlos! Ser Lego na Vida

A propósito da questão da forma no poema 'No meio do caminho' de Carlos Drummond de Andrade.Se já é evidente quando ouvimos o poema noutras línguas, este cartoon torna-o ainda mais preciso. 
Folha de São Paulo

terça-feira, 15 de maio de 2018

"SALVADOR SOBRAL ESTRAGOU PORTUGAL"

Em homenagem ao último lugar na Eurovisão ocupado pelo nosso Portugal, decidi deixar aqui uma pérola, que apesar de já ter um aninho, triunfa pela sua sátira humorística daquilo que significa ser português, algo a ter em mente antes de embarcarmos na angústia daquilo que será o Mundial 2018 😁

Ver o vídeo de Diogo Bataguas aqui

sábado, 12 de maio de 2018

Daily Show com Trevor Noah

Pena ser em inglês e sem legendas, mas não consigo deixar de admirar, com frequência, a elegância da linha editorial (a sequência lógica do segmento) e a qualidade da escrita, onde as piadas dançam em harmonia com informação e, oh espanto, pedagogia.

Ver um caso exemplar aqui.  

terça-feira, 8 de maio de 2018

A propósito de Safe Area Gorazde de Joe Sacco

















"One country, two alphabets(latin and cyrilic), three languages(serbo-croatian, slovenian and macedonian), four religions(roman catholic, orthodox, islam, protestant), five nationalities(slovenian, croat, serbian, muslim bosniak, macedonian), six republics(slovenia, croatia, serbia, bosnia and herzegovina, macedonia as well as two autonomous provinces- vojvodina and kosovo) surrounded by seven neighbours, a country in which live eight ethnic minorities(serbian, croatian, bosniak, muslim, slovene, macedonian, albanian, montenegrins)” Marechal Josip Broz Tito





A propósito de Safe Area Gorazde de Joe Sacco
    
       Os fenómenos sociais são passíveis de um estudo analítico esquemático e diretamente apreensível. É possível criarem-se esquemas logicamente perfeitos e substantivamente relevantes, capazes de rotular os e as agentes intervenientes, as suas interações, as suas motivações e a sua história partilhada, que permitam produzir conhecimento sobre esses fenómenos. Assim se formam cientistas sociais e sobre essa premissa metodológica, entre outras, tenho-me formado no curso de Ciências Políticas e Relações Internacionais. A minha formação tem incidido sobre a análise de fenómenos políticos- ou melhor, sobre os fenómenos vistos à luz de determinadas lupas disciplinares e metodológicas que sejam capazes de, num contexto académico, entender e explicar o desenrolar desses fenómenos de forma articulada e verosímil, permitindo, idealmente, uma produção de conhecimento após a sua magnificação- ou assim a minha licenciatura me foi vendida. Uma série de lupas que ao fim de três anos me permitiriam estar mais próximo de vislumbrar o quadro geral do mundo e das suas gentes. Só que depois há fenómenos como o da desintegração da Jugoslávia e as guerras que dela saíram e não sei se haverá uma lupa grande o suficiente para produzir conhecimento relevante sobre o porquê da Jugoslávia ser há tantos anos palco de tanta guerra, de tanto massacre.

     
      A Jugoslávia é um exemplo de como a fragmentação em sub-especialidades das ciências sociais, assim como a tendência etnocêntrica inerente a grande parte de quem a produz e reproduz, impede que se concretizem entendimentos holísticos dos fenómenos sociais mais complexos da nossa história, aprendendo com os erros do passado. Assim o foi após a Primeira Guerra Mundial quando a Jugoslávia saiu dos tratados de Versalhes dos escombros do Império Austro-Húngaro, assim o foi quando a guerra deflagrou em 1992. A sua desintegração junta uma miríade de fatores que se articulam simultaneamente: as rivalidades partidárias inter-étnicas nacionalistas; a crise do seu sistema económico-financeiro, a megalomania dos seus líderes que quiseram deixar o seu cunho na história; o peso da história e a sua exploração sob a forma de propaganda que exerceu uma capacidade de desumanização racionalmente incompreensível; o húbris ocidental no contexto internacional do quadro geral das revoluções de 1989, a queda do muro de Berlim, o sentimento triunfal do bloco demoliberal ocidental, o tratado de Maastricht de 1991 e o novo quadro de articulação das nações europeias... A história, a antropologia, a sociologia, a ciência política, as relações internacionais, a filosofia e demais saberes, somente juntos e concertados seriam porventura capazes de começar a arreganhar a superfície da história que a sua guerra conta. 
     
     Porventura para um europeu, a história da guerra da Jugoslávia é tão dificil de contar quanto de admitir. De admitir que aconteceu e que se deixou acontecer, enquanto a ONU assumia “erros de julgamento baseados numa filosofia de imparcialidade que assombrariam para sempre a história da ONU” como diria Kofi Annan em 2005; enquanto a UE pós-Maastricht e os EUA, “vencedores” da Guerra Fria, se mostravam desinteressados nos assuntos que estavam para além dos seus “interesses estratégicos”, comemoravam a vitória do demoliberalismo ocidental e a sua matriz socio-cultural. Era um triunfo civilizacional saído da ordem internacional do pós-guerra e não teria qualquer teste que o pusesse em causa. Sobretudo na sua área de influência.
     
     Não é claro o evento que demonstre clara e inequivocamente a incapacidade da Assembleia Geral da ONU em desenvolver e sustentar a paz no mundo e de, modo geral, cumprir o propósito para o qual foi criada. Independentemente de ver os seus mais profundos esforços de imbuir o sistema internacional de mecanismos institucionais capazes de prevenir e reverter potenciais injustiças, o Ocidente continuou e continua a perpetuar o mito da “guerra humanitária” ou da “intervenção humanitária”. Se a Etiópia(ainda sobre o auspício da Sociedade das Nações), a Serra Leoa, o Rwanda, para listar apenas alguns exemplos, não mereceram a “intervenção humanitária”(assim como a Bósnia não foi merecedora durante 3 anos de guerra) da parte das potências internacionais, o Kuwait, o Iraque, a Líbia e o Kosovo, viram o tecer de narrativas, tão intricadamente cínicas quanto, muitas vezes, no final de contas, falsas, para nelas justificar uma intervenção no quadro de alianças multilaterais. A coerência de um critério é difícil de se traçar pela tensão inerente entre legalidade e a moralidade no quadro legal do Direito Internacional. Debaixo disto tudo, sob o peso desta tensão, sob o peso dos direitos humanos declarados absolutos que, sistematicamente, são relativizados pelas tensões das relações internacionais, sob o peso de fronteiras, desenhadas a regra e esquadro, demasiadas vezes a sangue, há um caudal humano que faz todos os esforços humanamente possíveis para circular e desaguar livremente, concretizando a sua humanidade e esforçando-se para sobreviver ao peso de uma História que as empurra para além das margens do mundo e as reduz tantas vezes a não mais que notas de rodapé.
     
     O resgate das notas de rodapé da História da história das pessoas enquanto seres humanos, e não apenas como dados estatísticos ou sujeitos históricos, é sem dúvida uma das formas que se poderia descrever o que faz Joe Sacco em Safe Area GorazdePublicado em 2000, pela editora norte-americana Fantagraphics, é uma mescla de diário de guerra bio e autobiográfico, documentário, jornalismo de investigação que, ilustrado pelo traço fino e detalhado do autor maltês-americano, coalesce num diário gráfico que conta a história da desagregação da Jugoslávia e da Guerra da Bósnia em particular, ancoradas nas experiências dos habitantes da cidade de Gorazde. Entrevistados por Sacco ao longo de 4 meses passados na vila, cercada pelas tropas sérvias bósnias, entre 1994 e 1995.

       Vencedor do prémio Eisner para Best Original Graphic Novel em 2001, o livro apresenta-nos protagonistas recorrentes como Edin, o seu “gatekeeper” em Gorazde, aluno de mestrado( que estaria apenas a 15 minutos de ser mestre antes dos bombardeamentos em Sarajevo interromperem a defesa da sua tese) de engenharia que será soldado, professor primário, mula de carga de mantimentos e engenheiro de turbinas hidrícas elétricas improvisadas(as centrales) que permitiam a eletricidade suficiente para que, à noite, se pudessem ver cassetes do Chuck Norris; o seu irmão Riki, que passa a vida a cravar as letras de músicas rock dos anos 70 a Sacco para as cantar estilo Elvis ou Jagger das montanhaseslávicas e que, enquanto está mobilizado como soldado na linha da frente, memoriza-las, juntamente com artigos da Time que explicitam os assédios sexuais de Bill Clintonou as “Silly Girls”, um grupo de miúdas com 17, 18 anos que viram a sua adolescência violentamente interrompida pelo bombardeamento das suas escolas, a morte dos seus amigos e família e que, presas no marasmo do quotidiano do cerco a Gorazde sonham com um par de calças Levi’s 501 “originals” que lhes quebre a monotonia.

     Para além das personagens recorrentes e dos seus relatos sobre como a guerra as afetou pessoalmente, o seu dia à dia no cerco, os seus sonhos e ansiedades, a comunidade que formam entre si, Sacco mostra também um mosaico humano que ilustra bem a história da guerra que levou a cerca de 2,2 milhões de pessoas ficassem deslocadas da sua casa, muitas para sempre após os resultados dos acordos Dayton reconhecerem os ganhos territoriais resultantes da ocupações da parte das forças bósnias sérvias de território bósnioAtravés de várias entrevistas, que nos mostram em detalhe as fugas, as lutas, os massacres, as perdas, a destruição- enfim, a provação angustiante que todas estas pessoas tiveram que passar para fugir à morte, e o marasmo incerto do cerco em Gorazde onde são forçados a sobreviver. A sobrevivência é retratada pela vida do quotidiano de dezenas de protagonistas, e de como encaram, enquanto indivíduos e enquanto comunidade(uma pequena cidade, Gorazde acolhe milhares de refugiados ao longo dos três anos que esteve cercada, protegida, pela condição de “safe area” designada pela ONU, artifício jurídico precário produzido pelo Conselho de Segurança- Srebrenica conheceria amargamente a incapacidade das “safe areas” quando tropas holandesas assistiriam, impotentes, ao massacre de bósnios por parte das forças de Mladic em 1995), a incerteza de uma resolução, o isolamento do mundo exterior e a desagregação dos laços sociais. O tédio do enclausuramento, a frustração pelo acumular da rotina, a ânsia por novidades, a rotura abrupta e irrecuperável das suas vidas. Mas também os pequenos santuários de santidade, os laços que se formavam sobre os escombros e que mantinham viva a esperança e a humanidade dos habitantes ao longo dos três anos. 

     
     Para além dos protagonistas recorrentes e dos relatos passageiros, há ainda mais dois: nomeadamente o plano da história da Jugoslávia, que Sacco ilustra, desde a Segunda Guerra Mundial até à desagregação da Jugoslávia, assim como o relato da própria guerra(com foco na da Bósnia) até aos meses imediatamente após os meses de Dayton, de modo a contextualizar, para um leitor leigo, toda a história por trás da guerra; e, ainda, o seu próprio papel na Bósnia, simultaneamente enquanto entrevistador e testemunha, as suas interacções com os locais de Gorazde(“Gorazde was in love with me, people called me by my name. Whole high school classes jumped when I entered the room. Drunks offered me the town slut, soldiers wanted to talk girls, girls wanted me to carry them off to a Gap outlet in the sky. I’d like to tell you it was me they loved but that wouldn’t be the Real Truth.”), os laços afectivos que estabelece com os locais.

     É na fronteira ténue entre estes dois planos da obra que se sente a tensão entre Sacco, o jornalista de guerra, e Sacco, o contador/resgatador de histórias ocidental que se atira à Bósnia para entender, pelos seus próprios olhos, o que se passava na Bósnia para mostrar ao Ocidente a sua história pela suas próprias mãos. Demonstrando uma tremenda capacidade jornalística de fazer uma história meticulosamente pesquisada, ilustrada com vários mapas à escala, desenhado os principais intervenientes jugoslavos e estrangeiros, citando as suas intervenções públicas e o seu impacto, retraça a histórias negras de cada grupo étnico desde a Segunda Guerra Mundial(as mílicias Chetnik ultranacionalistas sérvias que mataram croatas e bósnios, a Ustashe ultranacionalista fascista croata que levou a cabo o Holocausto na Croácia, como regime fantoche da Alemanha nazi, e que foi responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas, não poupando os fantasmas dos próprios bósnios) até à exacerbação dos nacionalismos nas primeiras eleições livres em todos os países da Jugoslávia após o seu desmoronamento. Sacco rejeita, no entanto, o papel de jornalista isento e imparcial. O jornalista não é isento, muito menos o poderia ser na Bósnia. O jornalismo não é imparcial, difunde e substancia uma determinada percepção colectiva da realidade a uma escala massiva. É eminente e inescapavelmente político. É também altamente crítico do manto da isenção e da imparcialidade com que o Ocidente se cobriu, impedindo uma solução à degeneração da guerra em massacre. Do lado da comunidade internacional, quer na figura das grandes potências, quer na figura da ONU(militares e civis), que assim tapou tanto o seu desinteresse em se envolver militarmente como a incapacidade em chegar a um consenso diplomático entre si sobre uma solução. Foram precisos os massacres de Srebrenica, Zepa e Sarajevo para que o embaraço sobre a sua “dignidade”, difundida e reproduzida 24/7 nos canais da CNN e da BBC, obrigasse a uma intervenção. Seriam os americanos de Clinton(em ano de eleições; Sacco numa entrevista assume que era apenas natural que o seu retrato de Clinton e do comportamento americano fosse tão crítico quanto o é no livro) a forçar a carga agressiva da NATO sobre os bósnios sérvios( numa altura em que a aliança bósnio-croata repelia as forças sérvias) e a desautorizar os responsáveis da ONU no terreno. Sacco mostra tudo isto. É francamente notável a presença de espírito que Sacco mantém, ao longo da obra, a distância a que se impõe a si mesmo enquanto narrador pelo reconhecimento do privilégio que o seu estatuto de ocidental lhe confere na Bósnia, de “turista de guerra”, assim como a que se impõe a si mesmo para não retratar a história da guerra como um conto maniqueísta. 


     A escala do horror na Bósnia, medida nas figuras de 100,000 mortos e de 20,000 mulheres violadas do lado dos Bósnios em 3 anos, implicnecessariamente uma certa redundância nas entrevistas de Sacco. Todas as pessoas que entrevista têm a sua história individual de provação, de angústia, de perda violentíssima. Muitas vezes os relatos repetem-se. Histórias de como os bósnios viram antigos vizinhos sérvios, conhecidos, companheiros de escolha, miúdos que recebiam em casa como amigos dos filhos, talhantes a quem compravam carne, companheiros de noitadas, entre outros, passar, no espaço de algumas semanas em 1992, a serem seus agressores ao longo de três anos. Vizinhos, com quem coabitavam, socializavam, que recebiam em sua casa, comiam juntos, agora perseguiam-nos, bombardeavam as suas casas, disparavam sobre os seus filhos, violavam as suas mulheres e filhas, esventravam os seus amigos, degolavam os seus camaradas, profanavam os seus cadáveres. Quando forças bósnias retomam dos bósnios sérvios uma aldeia onde ficava a casa de Edin, ele apercebe-se que seu antigo vizinho, etnicamente sérvio, tinha roubado a porta da casa da sua família, que sempre ajudara a sua família. “Deveria fazê-lo sentir-se bem”, reconhece Edin. Há sempre uma vontade de pessoalizar os relatos e os seus intervenientes, de humanizar os desumanizados, de recusar a desumanização. Os próprios bósnios, por vezes, recusam a narrativa simplista que apresenta os sérvios como desumanos( ainda que, à luz da história, sejam os sérvios os principais responsáveis pela guerra, pelos massacres e pelo fratricídio). Sacco ilustra bem a necessidade de não interpretar a guerra da Bósnia em tons moralmente binários quando sublinha que os Bósnios reconheciam um inimigo, não nos sérvios enquanto etnia, mas sim nos Chetniks, histórico grupo paramilitar ultranacionalista sérvio, saco colectivo onde cabiam todos os que participavam nas deslocações forçadas, na propaganda que os desumanizava, nos massacres e nas violações da sua população. Ao forçar a pessoalização dos sujeitos o mural de Gorazde ganha vida na tangibilidade do quotidiano dos seus habitantes, vítimas e agressores, testemunhas e narradoras da sua história, irmanadas pela precariedade da sua condição humana.

     Numa das primeiras páginas do livro, Joe Sacco e uns jornalistas que estão de passagem por Gorazde visitam a escola onde Edin dá aulas. Edin sugerque eles façam perguntas às crianças. Sacco prefere que as crianças façam perguntas aos jornalistas. Uma criança pergunta-lhe porque é que vieram a Gorazde. A resposta que ele apresenta não é para os alunos, mas para o leitor que o acompanhará no processo de testemunho, “Because you are still here, you are not raped and scattered, not entangled in the limbs of a thousand others, because Gorazde lived, and how?”. Safe Area Gorazde é um monumento à capacidade humana. A capacidade dos povos para a mais devastadora destruição e a sua capacidade para a mais extraordinária de sobrevivência e persistência, mantendo a sua sanidade e a sua dignidade no quotidiano do cerco da guerraAcaba também por revelar toda a capacidade humana, artística e jornalística do seu autor, que reconhece as suas limitações e, ainda assim, movido pela sua compaixão pelo seu olhar crítico, mostra-nos tudo aquilo de que somos capazes de fazer e de quão pouco somos capazes de ver e entender se não tivermos a compaixão de querer ver e querer entender; quem vir a história dos habitantes de Gorazde não será capaz de a ignorar no futuro. A guerra e o livro terminam em 1995. Joe Sacco mostra-nos a precoce e inquieta esperança e alegria dos seus protagonistas, vendo os acordos de Dayton anunciados em directo na televisãoA sua sobrevivência ficara para trás e, livres do cerco, retomariam as suas vidas, reconstruindo-las. Podemos aprender muito com os escombros que Sacco não deixou cair para as margens da História. 


Guilherme Tito Santos




segunda-feira, 7 de maio de 2018

Aula 7/5: a cor do texto

Apresentação por Elena de trabalho sobre «literatura de favela» - socialmente à margem.
Talvez também pudesse chamar-se literatura-dos-mais-desfavorecidos.

E fica a questão: por que carga de água precisam os mais desfavorecidos de literatura?

Tanto Carolina Maria de Jesus como Paulo Lins representam um Brasil (ou melhor, não prepresentam, são) pouco representado em muitos outros produtos culturais: as telenovelas, nomeadamente, o mais visível de todos. Mas também na política, na classe média etc.

A literatura tem cor? Ou género? Tem alguma importância quem escreve?

Implícita aqui a polémica, nos EUA, entre quem diz «Black lives matter» e a resposta «All lives matter». A internet está cheia de bons textos para alimentar a nossa reflexão. Um aqui.

Lembro a polémica quando um Presidente bem intencionado, questionado sobre as grandes dificuldades económicas de muitas famílias, disse que ele próprio sentia a crise no bolso e tinha algumas dificuldades. Sim, é verdade.

Por exemplo, se um indivíduo que só tem 20 euros perde os 20 euros e um outro que tem 100 perde 20 euros, é verdade que ambos perderam 20 euros. Mas um perdeu mais, talvez - embora tenha perdido exactamente o mesmo.

Não importa de que grupo étnico somos, e ninguém deve ser vítima de preconceito. Certo. Mas alguém é vítima de preconceito com mais frequência.

Lembro num romance policial de Robert B. Parker que o narrador, derrotado num combate de boxe por um pugilista melhor, resmunga: «Se tivéssemos lutado com outras regras [as da rua] eu era capaz de te ter vencido.» Responde o outro, calmamente: «Maybe. But that's not the point, is it?»

Todas as vidas têm o mesmo valor - devem ter o mesmo valor. A sociedade deve ser cega à cor do cidadão, todos temos os mesmos direitos etc. But that's not the pojt here, is it?


sexta-feira, 4 de maio de 2018

O caso do homem que mudou a constituição americana

Tenho um fraquinho pelos humoristas. Acho que cumprem - sobretudo neste milénio - um papel importante. E não só por dizerem piadas que fazem rir ou não, também pela pertinência, pela adequação aos tempos que correm, pela capacidade de desmontar clichés, lugares-comuns, ideias-feitas disfarçadas de factos e de «coisa-natural». 
Aqui um exemplo de um programa humorístico que, a brincar, a brincar, é pedagógico e surpreendentemente informativo.


Todos os clichês, todas boas intenções. Aqui.

Curiosamente, muito parecido (na linguagem e valores) com a parodpa "Drogado" dos Irmãos Catita.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Os limites da comédia



© Ana Rita Guerra, DN 1/5/18, p. 40. Acessível aqui.
Deviam ter feito mais pesquisa antes de me pedirem para fazer isto", lançou a comediante Michelle Wolf, antecipando a reação ao que iria dizer no tom de voz arrastado com que fez implodir a Gala dos Correspondentes da Casa Branca. A sala, cheia da elite de Washington, DC, titubeou entre os olhos arregalados, o silêncio e o escapar de expressões de espanto. Não houve gargalhadas gerais, porque Michelle Wolf rebentou com toda a gente neste número de stand-up que ficará para a história.

 
Os meios de comunicação foram um dos principais alvos de Michelle Wolf, de forma bastante certeira. "Vocês estão obcecados com Trump. Namoraram com ele? Porque fingem que o odeiam mas penso que o amam. Ninguém nesta sala quer admitir que Trump vos ajudou a todos", atirou. "Ele ajudou-vos a vender jornais e livros e televisão. Vocês ajudaram a criar este monstro e agora estão a lucrar com ele." Wolf fez piadas com a CNN, a Fox News e a MSNBC. Também passou pelos democratas, dizendo que era difícil gozar com eles porque "nunca fazem nada."
 
No entanto, a maior torrente de críticas vai para os comentários feitos sobre a porta-voz da Casa Branca Sarah Huckabee Sanders e a conselheira presidencial Kellyanne Conway. "Adoro-a como Aunt Lydia em The Handmaid"s Tale", disse sobre Sanders, referindo-se à odiosa personagem que controla as mulheres férteis na série da Hulu. "Gosto da Sarah. Acho que é engenhosa. Ela queima os factos e usa a cinza para criar um perfeito olho esfumado." Wolf referia-se à forma como Sanders manipula os factos nas conferências de imprensa, mas por algum motivo muita gente assumiu que estava a fazer pouco do seu aspeto físico.
 
Sobre Kellyanne, pediu que deixassem de a convidar para programas televisivos. "Tudo o que ela faz é mentir", apontou. "É como aquele velho ditado, se uma árvore cair na floresta, como é que pomos a Kellyanne lá debaixo? Não sugiro que se magoe, apenas que fique presa. Presa debaixo de uma árvore."
 
Donald Trump foi um alvo frequente, claro, mas há pouco que uma comediante possa dizer agora sobre ele que ainda surpreenda. As anedotas passaram por Ivanka Trump, "tão útil para as mulheres como uma caixa de tampões vazia", o vice-presidente Mike Pence, Paul Ryan, o caso Stormy Daniels e outros temas da política americana.
 
"Sei que muitos de vocês são super antiaborto, a não ser que seja para a vossa amante secreta", disse, causando apoplexias aos conservadores antiaborto na sala. As críticas têm vindo sobretudo da direita, mas também de liberais e jornalistas, que consideraram a performance de mau gosto e inapropriada. É preciso uma dose significativa de hipocrisia para despejar esta indignação em cima de Michelle Wolf, uma comediante que foi contratada para fazer exatamente o que fez numa gala em que se celebrou a liberdade de expressão.

Dizer que há uma linha de decência que não deve ser ultrapassada numa gala como esta até podia ser válido - se Donald Trump não tivesse apagado todas as linhas. Se não tivesse chamado cadelas a mulheres, se não tivesse feito pouco do aspeto de Hillary Clinton, se não tivesse gozado com pessoas com deficiências, numa lista de insultos gratuitos e constantes com os quais muita da gente que está hoje ofendida foi conivente. O que está a acontecer nesta Casa Branca não é normal e o próprio presidente não foi à gala porque odeia (quase) toda a imprensa.


O número ofensivo de Michelle Wolf encaixa-se bem nesta era do pós-politicamente correto por que clamaram os apoiantes de Trump. As pessoas queriam o direito de dizer o que pensam sobre gays, imigrantes e outras raças e maravilharam-se com a falta de filtro de Trump. Só que não querem que lhes façam o mesmo.
 

Temos, como animais políticos, esta natureza de não dar ao outro lado o benefício da dúvida que consignamos ao nosso. É isso que torna esta guerra cultural tão consequente na política: a ideia que as nossas críticas são todas aceitáveis e que as dos outros são todas horríveis. De que devemos poder dizer o que queremos sobre os outros, mas ai de quem nos "falte ao respeito". Se este é um país que escrutina com maior ferocidade o que uma comediante diz do que o que presidente faz, para a próxima convidem um mimo.



Questões:
1) Por que motivo houve quem achasse pessoalmente ofensiva a piada sobre Sarah  Huckabee?
2) A palestra foi «de mau gosto e inapropriada»? Diga porquê.
3) Estaremos mesmo «no pós-politicamente correto»? E isso significa o quê?
4) O que é (ou foi) «o politicamente correto«? Um movimento? Uma ditadura? Etc.?
5) Há uma guerra cultural em curso? (Por exemplo, o mundo do futebol está a ser contaminado pelo mundo exterior ou será o contrário? O que é feito da capacidade de diálogo?)

Exame - 20/6, sala B 0.6, 14h

O exame de melhoria e/ou final será dia 20 e não 18, conforme fora inicialmente anunciado. Quem tiver algum problema, contacte-me.