sábado, 26 de maio de 2018

Sobre Nerve e o seu álbum «'Trabalho & Conhaque' ou 'A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança'»


I think the most important thing about music is the sense of escape

Thom Yorke

Esta afirmação de Thom Yorke, como qualquer outra asserção relativa à Música - ou à Arte, de forma generalizada -, pode ser discutida. Já falámos, durante as aulas, de como a Literatura - os livros que lemos, os filmes que vemos, as músicas que ouvimos ou uma data de outras coisas que fazemos - pode constituir uma ferramenta para nos relacionarmos melhor com o mundo. No entanto, isso não é um dado adquirido. A literatura tanto pode ajudar-nos a dissecar os nossos medos como a reavivá-los. O Luís Pacheco disse que leu muito e foi pior. Se calhar leu demais, como diz a minha mãe. (Não estou a culpar a Literatura. As ferramentas, por si só, não valem tudo. Há que saber, ou aprender, a usá-las.) 

Da mesma forma, também não é garantido que a Literatura - ou a Música, ou a Arte - nos permitam essa sensação de escape de que fala o vocalista dos Radiohead. (Ainda no outro dia fiquei chateado com ele. Deitei-me, pus um dos meus poemas preferidos a tocar, e, para meu espanto, não me levou para lado algum. Já me passou. Acho que não me levou porque eu não estava a ver nenhum sítio, no momento, para onde quisesse ir.) Talvez não seja a sensação de escape a coisa mais importante que a Música ou a Arte possibilitam, mas tendo a concordar que será, talvez, aquilo que oferecem imediatamente, numa primeira instância, quando o mundo parece tão assustador que é preciso emergir dele antes de voltar a mergulhar.

É com uma fuga do mundo, para a Cidade Perfeita, que começa o álbum de Nerve sobre o qual realizarei a minha apresentação, na próxima quarta-feira. O escritor/poeta/rapper sabe que terá de voltar. No entanto, diz que não precisa de viver lá. Basta-lhe "ir lá de vez em quando". Talvez não se possa exigir mais do que isso à Arte. Umas vezes ajuda-nos a viver no mundo, e outras, a fugir dele. Mas se o regresso é inevitável,qual a utilidade de viajar? Passa-se o tempo - para muitos, a unidade base da música -, o que é bem melhor que esperar que seja ele a passar-nos. Quando se espera, a tendência é que nos diga: 'passe você, que vai mais carregado'. Aí, instala-se o tédio. E já se sabe que a melancolia consegue cheirar o tédio a quilómetros. É aí que uma saída para outro mundo, mesmo sendo a estadia efémera, se apresenta como solução. A perseguição ao tédio não dá tempo à melancolia para esperar muito pelo regresso de ninguém.

Não vou poder mostrar em aula, face à gestão de tempo que terei de fazer, grande parte do álbum. Todas as faixas estão no Youtube, pelo que quem quiser pode ouvir, antes ou depois de quarta-feira, todo o álbum.

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