terça-feira, 8 de maio de 2018

A propósito de Safe Area Gorazde de Joe Sacco

















"One country, two alphabets(latin and cyrilic), three languages(serbo-croatian, slovenian and macedonian), four religions(roman catholic, orthodox, islam, protestant), five nationalities(slovenian, croat, serbian, muslim bosniak, macedonian), six republics(slovenia, croatia, serbia, bosnia and herzegovina, macedonia as well as two autonomous provinces- vojvodina and kosovo) surrounded by seven neighbours, a country in which live eight ethnic minorities(serbian, croatian, bosniak, muslim, slovene, macedonian, albanian, montenegrins)” Marechal Josip Broz Tito





A propósito de Safe Area Gorazde de Joe Sacco
    
       Os fenómenos sociais são passíveis de um estudo analítico esquemático e diretamente apreensível. É possível criarem-se esquemas logicamente perfeitos e substantivamente relevantes, capazes de rotular os e as agentes intervenientes, as suas interações, as suas motivações e a sua história partilhada, que permitam produzir conhecimento sobre esses fenómenos. Assim se formam cientistas sociais e sobre essa premissa metodológica, entre outras, tenho-me formado no curso de Ciências Políticas e Relações Internacionais. A minha formação tem incidido sobre a análise de fenómenos políticos- ou melhor, sobre os fenómenos vistos à luz de determinadas lupas disciplinares e metodológicas que sejam capazes de, num contexto académico, entender e explicar o desenrolar desses fenómenos de forma articulada e verosímil, permitindo, idealmente, uma produção de conhecimento após a sua magnificação- ou assim a minha licenciatura me foi vendida. Uma série de lupas que ao fim de três anos me permitiriam estar mais próximo de vislumbrar o quadro geral do mundo e das suas gentes. Só que depois há fenómenos como o da desintegração da Jugoslávia e as guerras que dela saíram e não sei se haverá uma lupa grande o suficiente para produzir conhecimento relevante sobre o porquê da Jugoslávia ser há tantos anos palco de tanta guerra, de tanto massacre.

     
      A Jugoslávia é um exemplo de como a fragmentação em sub-especialidades das ciências sociais, assim como a tendência etnocêntrica inerente a grande parte de quem a produz e reproduz, impede que se concretizem entendimentos holísticos dos fenómenos sociais mais complexos da nossa história, aprendendo com os erros do passado. Assim o foi após a Primeira Guerra Mundial quando a Jugoslávia saiu dos tratados de Versalhes dos escombros do Império Austro-Húngaro, assim o foi quando a guerra deflagrou em 1992. A sua desintegração junta uma miríade de fatores que se articulam simultaneamente: as rivalidades partidárias inter-étnicas nacionalistas; a crise do seu sistema económico-financeiro, a megalomania dos seus líderes que quiseram deixar o seu cunho na história; o peso da história e a sua exploração sob a forma de propaganda que exerceu uma capacidade de desumanização racionalmente incompreensível; o húbris ocidental no contexto internacional do quadro geral das revoluções de 1989, a queda do muro de Berlim, o sentimento triunfal do bloco demoliberal ocidental, o tratado de Maastricht de 1991 e o novo quadro de articulação das nações europeias... A história, a antropologia, a sociologia, a ciência política, as relações internacionais, a filosofia e demais saberes, somente juntos e concertados seriam porventura capazes de começar a arreganhar a superfície da história que a sua guerra conta. 
     
     Porventura para um europeu, a história da guerra da Jugoslávia é tão dificil de contar quanto de admitir. De admitir que aconteceu e que se deixou acontecer, enquanto a ONU assumia “erros de julgamento baseados numa filosofia de imparcialidade que assombrariam para sempre a história da ONU” como diria Kofi Annan em 2005; enquanto a UE pós-Maastricht e os EUA, “vencedores” da Guerra Fria, se mostravam desinteressados nos assuntos que estavam para além dos seus “interesses estratégicos”, comemoravam a vitória do demoliberalismo ocidental e a sua matriz socio-cultural. Era um triunfo civilizacional saído da ordem internacional do pós-guerra e não teria qualquer teste que o pusesse em causa. Sobretudo na sua área de influência.
     
     Não é claro o evento que demonstre clara e inequivocamente a incapacidade da Assembleia Geral da ONU em desenvolver e sustentar a paz no mundo e de, modo geral, cumprir o propósito para o qual foi criada. Independentemente de ver os seus mais profundos esforços de imbuir o sistema internacional de mecanismos institucionais capazes de prevenir e reverter potenciais injustiças, o Ocidente continuou e continua a perpetuar o mito da “guerra humanitária” ou da “intervenção humanitária”. Se a Etiópia(ainda sobre o auspício da Sociedade das Nações), a Serra Leoa, o Rwanda, para listar apenas alguns exemplos, não mereceram a “intervenção humanitária”(assim como a Bósnia não foi merecedora durante 3 anos de guerra) da parte das potências internacionais, o Kuwait, o Iraque, a Líbia e o Kosovo, viram o tecer de narrativas, tão intricadamente cínicas quanto, muitas vezes, no final de contas, falsas, para nelas justificar uma intervenção no quadro de alianças multilaterais. A coerência de um critério é difícil de se traçar pela tensão inerente entre legalidade e a moralidade no quadro legal do Direito Internacional. Debaixo disto tudo, sob o peso desta tensão, sob o peso dos direitos humanos declarados absolutos que, sistematicamente, são relativizados pelas tensões das relações internacionais, sob o peso de fronteiras, desenhadas a regra e esquadro, demasiadas vezes a sangue, há um caudal humano que faz todos os esforços humanamente possíveis para circular e desaguar livremente, concretizando a sua humanidade e esforçando-se para sobreviver ao peso de uma História que as empurra para além das margens do mundo e as reduz tantas vezes a não mais que notas de rodapé.
     
     O resgate das notas de rodapé da História da história das pessoas enquanto seres humanos, e não apenas como dados estatísticos ou sujeitos históricos, é sem dúvida uma das formas que se poderia descrever o que faz Joe Sacco em Safe Area GorazdePublicado em 2000, pela editora norte-americana Fantagraphics, é uma mescla de diário de guerra bio e autobiográfico, documentário, jornalismo de investigação que, ilustrado pelo traço fino e detalhado do autor maltês-americano, coalesce num diário gráfico que conta a história da desagregação da Jugoslávia e da Guerra da Bósnia em particular, ancoradas nas experiências dos habitantes da cidade de Gorazde. Entrevistados por Sacco ao longo de 4 meses passados na vila, cercada pelas tropas sérvias bósnias, entre 1994 e 1995.

       Vencedor do prémio Eisner para Best Original Graphic Novel em 2001, o livro apresenta-nos protagonistas recorrentes como Edin, o seu “gatekeeper” em Gorazde, aluno de mestrado( que estaria apenas a 15 minutos de ser mestre antes dos bombardeamentos em Sarajevo interromperem a defesa da sua tese) de engenharia que será soldado, professor primário, mula de carga de mantimentos e engenheiro de turbinas hidrícas elétricas improvisadas(as centrales) que permitiam a eletricidade suficiente para que, à noite, se pudessem ver cassetes do Chuck Norris; o seu irmão Riki, que passa a vida a cravar as letras de músicas rock dos anos 70 a Sacco para as cantar estilo Elvis ou Jagger das montanhaseslávicas e que, enquanto está mobilizado como soldado na linha da frente, memoriza-las, juntamente com artigos da Time que explicitam os assédios sexuais de Bill Clintonou as “Silly Girls”, um grupo de miúdas com 17, 18 anos que viram a sua adolescência violentamente interrompida pelo bombardeamento das suas escolas, a morte dos seus amigos e família e que, presas no marasmo do quotidiano do cerco a Gorazde sonham com um par de calças Levi’s 501 “originals” que lhes quebre a monotonia.

     Para além das personagens recorrentes e dos seus relatos sobre como a guerra as afetou pessoalmente, o seu dia à dia no cerco, os seus sonhos e ansiedades, a comunidade que formam entre si, Sacco mostra também um mosaico humano que ilustra bem a história da guerra que levou a cerca de 2,2 milhões de pessoas ficassem deslocadas da sua casa, muitas para sempre após os resultados dos acordos Dayton reconhecerem os ganhos territoriais resultantes da ocupações da parte das forças bósnias sérvias de território bósnioAtravés de várias entrevistas, que nos mostram em detalhe as fugas, as lutas, os massacres, as perdas, a destruição- enfim, a provação angustiante que todas estas pessoas tiveram que passar para fugir à morte, e o marasmo incerto do cerco em Gorazde onde são forçados a sobreviver. A sobrevivência é retratada pela vida do quotidiano de dezenas de protagonistas, e de como encaram, enquanto indivíduos e enquanto comunidade(uma pequena cidade, Gorazde acolhe milhares de refugiados ao longo dos três anos que esteve cercada, protegida, pela condição de “safe area” designada pela ONU, artifício jurídico precário produzido pelo Conselho de Segurança- Srebrenica conheceria amargamente a incapacidade das “safe areas” quando tropas holandesas assistiriam, impotentes, ao massacre de bósnios por parte das forças de Mladic em 1995), a incerteza de uma resolução, o isolamento do mundo exterior e a desagregação dos laços sociais. O tédio do enclausuramento, a frustração pelo acumular da rotina, a ânsia por novidades, a rotura abrupta e irrecuperável das suas vidas. Mas também os pequenos santuários de santidade, os laços que se formavam sobre os escombros e que mantinham viva a esperança e a humanidade dos habitantes ao longo dos três anos. 

     
     Para além dos protagonistas recorrentes e dos relatos passageiros, há ainda mais dois: nomeadamente o plano da história da Jugoslávia, que Sacco ilustra, desde a Segunda Guerra Mundial até à desagregação da Jugoslávia, assim como o relato da própria guerra(com foco na da Bósnia) até aos meses imediatamente após os meses de Dayton, de modo a contextualizar, para um leitor leigo, toda a história por trás da guerra; e, ainda, o seu próprio papel na Bósnia, simultaneamente enquanto entrevistador e testemunha, as suas interacções com os locais de Gorazde(“Gorazde was in love with me, people called me by my name. Whole high school classes jumped when I entered the room. Drunks offered me the town slut, soldiers wanted to talk girls, girls wanted me to carry them off to a Gap outlet in the sky. I’d like to tell you it was me they loved but that wouldn’t be the Real Truth.”), os laços afectivos que estabelece com os locais.

     É na fronteira ténue entre estes dois planos da obra que se sente a tensão entre Sacco, o jornalista de guerra, e Sacco, o contador/resgatador de histórias ocidental que se atira à Bósnia para entender, pelos seus próprios olhos, o que se passava na Bósnia para mostrar ao Ocidente a sua história pela suas próprias mãos. Demonstrando uma tremenda capacidade jornalística de fazer uma história meticulosamente pesquisada, ilustrada com vários mapas à escala, desenhado os principais intervenientes jugoslavos e estrangeiros, citando as suas intervenções públicas e o seu impacto, retraça a histórias negras de cada grupo étnico desde a Segunda Guerra Mundial(as mílicias Chetnik ultranacionalistas sérvias que mataram croatas e bósnios, a Ustashe ultranacionalista fascista croata que levou a cabo o Holocausto na Croácia, como regime fantoche da Alemanha nazi, e que foi responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas, não poupando os fantasmas dos próprios bósnios) até à exacerbação dos nacionalismos nas primeiras eleições livres em todos os países da Jugoslávia após o seu desmoronamento. Sacco rejeita, no entanto, o papel de jornalista isento e imparcial. O jornalista não é isento, muito menos o poderia ser na Bósnia. O jornalismo não é imparcial, difunde e substancia uma determinada percepção colectiva da realidade a uma escala massiva. É eminente e inescapavelmente político. É também altamente crítico do manto da isenção e da imparcialidade com que o Ocidente se cobriu, impedindo uma solução à degeneração da guerra em massacre. Do lado da comunidade internacional, quer na figura das grandes potências, quer na figura da ONU(militares e civis), que assim tapou tanto o seu desinteresse em se envolver militarmente como a incapacidade em chegar a um consenso diplomático entre si sobre uma solução. Foram precisos os massacres de Srebrenica, Zepa e Sarajevo para que o embaraço sobre a sua “dignidade”, difundida e reproduzida 24/7 nos canais da CNN e da BBC, obrigasse a uma intervenção. Seriam os americanos de Clinton(em ano de eleições; Sacco numa entrevista assume que era apenas natural que o seu retrato de Clinton e do comportamento americano fosse tão crítico quanto o é no livro) a forçar a carga agressiva da NATO sobre os bósnios sérvios( numa altura em que a aliança bósnio-croata repelia as forças sérvias) e a desautorizar os responsáveis da ONU no terreno. Sacco mostra tudo isto. É francamente notável a presença de espírito que Sacco mantém, ao longo da obra, a distância a que se impõe a si mesmo enquanto narrador pelo reconhecimento do privilégio que o seu estatuto de ocidental lhe confere na Bósnia, de “turista de guerra”, assim como a que se impõe a si mesmo para não retratar a história da guerra como um conto maniqueísta. 


     A escala do horror na Bósnia, medida nas figuras de 100,000 mortos e de 20,000 mulheres violadas do lado dos Bósnios em 3 anos, implicnecessariamente uma certa redundância nas entrevistas de Sacco. Todas as pessoas que entrevista têm a sua história individual de provação, de angústia, de perda violentíssima. Muitas vezes os relatos repetem-se. Histórias de como os bósnios viram antigos vizinhos sérvios, conhecidos, companheiros de escolha, miúdos que recebiam em casa como amigos dos filhos, talhantes a quem compravam carne, companheiros de noitadas, entre outros, passar, no espaço de algumas semanas em 1992, a serem seus agressores ao longo de três anos. Vizinhos, com quem coabitavam, socializavam, que recebiam em sua casa, comiam juntos, agora perseguiam-nos, bombardeavam as suas casas, disparavam sobre os seus filhos, violavam as suas mulheres e filhas, esventravam os seus amigos, degolavam os seus camaradas, profanavam os seus cadáveres. Quando forças bósnias retomam dos bósnios sérvios uma aldeia onde ficava a casa de Edin, ele apercebe-se que seu antigo vizinho, etnicamente sérvio, tinha roubado a porta da casa da sua família, que sempre ajudara a sua família. “Deveria fazê-lo sentir-se bem”, reconhece Edin. Há sempre uma vontade de pessoalizar os relatos e os seus intervenientes, de humanizar os desumanizados, de recusar a desumanização. Os próprios bósnios, por vezes, recusam a narrativa simplista que apresenta os sérvios como desumanos( ainda que, à luz da história, sejam os sérvios os principais responsáveis pela guerra, pelos massacres e pelo fratricídio). Sacco ilustra bem a necessidade de não interpretar a guerra da Bósnia em tons moralmente binários quando sublinha que os Bósnios reconheciam um inimigo, não nos sérvios enquanto etnia, mas sim nos Chetniks, histórico grupo paramilitar ultranacionalista sérvio, saco colectivo onde cabiam todos os que participavam nas deslocações forçadas, na propaganda que os desumanizava, nos massacres e nas violações da sua população. Ao forçar a pessoalização dos sujeitos o mural de Gorazde ganha vida na tangibilidade do quotidiano dos seus habitantes, vítimas e agressores, testemunhas e narradoras da sua história, irmanadas pela precariedade da sua condição humana.

     Numa das primeiras páginas do livro, Joe Sacco e uns jornalistas que estão de passagem por Gorazde visitam a escola onde Edin dá aulas. Edin sugerque eles façam perguntas às crianças. Sacco prefere que as crianças façam perguntas aos jornalistas. Uma criança pergunta-lhe porque é que vieram a Gorazde. A resposta que ele apresenta não é para os alunos, mas para o leitor que o acompanhará no processo de testemunho, “Because you are still here, you are not raped and scattered, not entangled in the limbs of a thousand others, because Gorazde lived, and how?”. Safe Area Gorazde é um monumento à capacidade humana. A capacidade dos povos para a mais devastadora destruição e a sua capacidade para a mais extraordinária de sobrevivência e persistência, mantendo a sua sanidade e a sua dignidade no quotidiano do cerco da guerraAcaba também por revelar toda a capacidade humana, artística e jornalística do seu autor, que reconhece as suas limitações e, ainda assim, movido pela sua compaixão pelo seu olhar crítico, mostra-nos tudo aquilo de que somos capazes de fazer e de quão pouco somos capazes de ver e entender se não tivermos a compaixão de querer ver e querer entender; quem vir a história dos habitantes de Gorazde não será capaz de a ignorar no futuro. A guerra e o livro terminam em 1995. Joe Sacco mostra-nos a precoce e inquieta esperança e alegria dos seus protagonistas, vendo os acordos de Dayton anunciados em directo na televisãoA sua sobrevivência ficara para trás e, livres do cerco, retomariam as suas vidas, reconstruindo-las. Podemos aprender muito com os escombros que Sacco não deixou cair para as margens da História. 


Guilherme Tito Santos




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