1. Sobre a obra e o autor
Maus foi publicado em série
entre 1980 e 1991 na revista Raw, dirigida pelo autor e
pela sua esposa Françoise Mouly, sendo compilada e publicada em três volumes a
partir de 1986 até 1991. O autor Art Spiegelman (baptizado Itzhak Avraham
ben Zeevm 1948, em Estocolmo, Suécia) fez parte e criou nos anos 70 uma série
de revistas de comix, à margem do mundo mainstream da DC e da Marvel; teve
estabilidade financeira trabalhando para a Topps, uma marca de pastilhas
elásticas para a qual contribuiu ao longo de 20 anos, trabalhando também
dos anos 90 até aos inícios dos anos 2000 na New Yorker enquanto ilustrador e
ocasional ensaísta. Foi artista à revelia dos pais, que queriam que
tivesse sido dentista; sentiu ao longo da vida a sombra do irmão que morreu no
Holocausto e que nunca conheceu; a sua mãe suicida-se no dia em que regressa a
casa do seu internamento por um esgotamento nervoso induzido por um consumo de
LSD excessivo. Maus é a sua grande obra, embora tenha produzido amplo trabalho
de banda desenhada, ensaios, capas de revistas.
Maus é obra fundamental para a consolidação do
termo “graphic novel” e para a credibilidade literária da
banda desenhada enquanto meio artístico que não meramente juvenil. É
importante a contextualização de Maus numa série de obras que dos finais dos 70
até meados, finais dos anos 80, fazem parte de uma onda que levará a uma
crescente atenção académica ao mundo da banda desenhada, nomeadamente o
primeiro livro de Will Eisner, A contract with God em 1978, Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons em 1986(embora reunido em 1987) e The Dark Knight Returns de Frank Miller, igualmente editado em
1986. O sucesso de vendas e junto dos críticos que A Contract With God de Will Eisner gerou, levou à consolidação do
termo graphic novel para histórias em formato de banda desenhada que excediam
as habituais 32 páginas americanas ou 64 de maxi-size menos vulgares, e
contavam em formato mais extenso estórias que tinham em si temas mais tradicionalmente
associados ao romance ou ao conto.
2. Maus – livro de memórias da família
Spiegelman e da história do Holocausto
Maus é um retrato altamente pessoal da relação
que o autor tem com o seu pai, servindo a sua interação ao longo de uma
série de visitas que o autor faz a casa do pai e as histórias que este lhe conta como
base para se contar a história da sua família, intimamente ligada à
história do Holocausto(de 84 membros de uma família alargada sobreviveram 11 ao Holocausto).
Este primeiro volume do livro conta a história do
Vladek e Anja (pais do autor) pelo ponto de vista de Vladek, começando nos anos
anteriores à deflagração da 2ª guerra mundial e terminando em 1944. A vida
tranquila antes do Holocausto, o conhecer e o apaixonar-se do casal, a vida dos
dois ao longo do Holocausto e os horrores por que passaram, tentando evadir a
captura dos alemães e o envio para os campos de concentração são os
relatos principais da história apresentada. O que distingue
fundamentalmente o Maus de outras obras sobre relatos em primeira mão
de sobrevivências do Holocausto são duas coisas:o antropomorfismo das
personagens, que apresenta os judeus como ratos, alemães como gatos, polacos
como porcos e americanos como cães; e o plano do dia atual, com o pai,
sobrevivente, a passar a sua memória ao seu filho. como herança coletiva dupla:
histórica e familiar.
3. O desconcertante antropomorfismo
A forma simples e direta dos desenhos da banda
desenhada(pranchas pequenas, desenhos
grandes, a preto e branco com grande contraste) permite uma
referência visual imediatamente apreensível pelo leitor, nomeadamente horrores
do Holocausto que requereriam dezenas de palavras para descrever conseguem aqui
ser sentidas com a sua carga emocional e o seu peso histórico intacto nuns
rasgos telegráficos desenhados,sem recorrer a embelezamentos. É a realidade pura e
crua- à exceção de ser uma história sobre ratos, gatos e porcos. O
antropomorfismo, enquanto metáfora visual, remete de certa forma o leitor para
o universo da fábula, do desenho animado do Mickey Mouse, um universo
tradicionalmente infantil. Como consequência, ver os actos de violência e
barbárie, que nós sabemos serem experiências reais e que estam ancoradas nas vida das pessoas a quem
estas memórias pertencem, exacerbam de forma desconcertante o horror e o
surreal do seu sofrimento. É também o sublinhar da desumanização levada a cabo
pelos nazis dos judeus e dos polacos(apresentados na sua propaganda como ratos
e porcos) assim como da relação predatorial que os alemães impuseram sobre os judeus.
4. A duplicidade da memória, o seu peso e o fardo do
seu legado
Igualmente desconcertante é a a duplicidade
do pai enquanto Vladek ,o sobrevivente heroico do Holocausto, mas
também como Vladek, o pai que acorda o filho de madrugada
para que venha ter consigo limpar o telhado, o pai que atira pela
janela um casaco do filho por achar que já não está em condições para o seu
filho usar, que apanha fios eléctricos na rua para que não tenha que
os vir a comprar no futuro, que tem um casamento sem qualquer tipo de romance
em que rebaixa constantemente a sua esposa, que é caracterizado por acumular
todo o tipo de tralhas em casa- enfim o pai rabugento, desligado e avarento(a
certa altura o autor queixa-se no livro que o pai é estereotípicamente semita e a
personalidade do pai corta um bocado com a imagem que ele quer passar dele para
o livro) com quem o filho confessa várias vezes ao longo da obra não ter
uma relação minimamente estável. São aliás várias as vezes ao longo do livro em
que o filho se refere aos pais pelos nomes próprios (sem ser no contexto
da história dos pais no Holocausto), referindo ainda que formou-se como artista
a despeito dos pais, por ser uma área em que sabia que o seu pai jamais
quereria competir consigo como acontecia sempre que o pai pedia ajuda ao filho
numa qualquer tarefa doméstica. Enfim, às memórias de Vladek o
sobrevivente judeu heroico são justapostas as crónicas das suas ações
(enquanto Spiegelmann escreve o seu livro) como homem embirrento e avarento,
pai distante e antagónico, marido bruto e desinteressado, sobrevivente à morte
do seu filho primogénito, da sua primeira mulher e amor da sua vida e àquilo
que considerava ser a degeneração do seu filho vivo.
A família e a memória que perpetua enquanto
herança coletiva parecem-me ser temas centrais no livro. A memória como herança
coletiva em dois sentidos: histórica e familiar. A memória como
legado histórico da família, o legado como maldição pessoal do pai e
do filho, da sua relação e das suas vidas pessoais. O sacrifício familiar,
a desagregação dos laços familiares( quer por via dos primos e
vizinhos que cooperavam com os nazis que serão temas recorrentes
ao longo das memórias do pai, quer pelos relatos do autor da sua conturbada
relação familiar, particularmente com a história dentro da história “Prisoner
on the Hell Planet” que relata a reação do autor e do seu pai ao suicídio da
sua mãe) são como os ombros que carregam o peso das memórias de Vladek ao
longo do livro e que carregam a versão aqui desenhada pelo seu filho.
O pai, figura central na obra, é
simultaneamente personagem histórico e familiar no épico trágico do Holocausto,
que marcará para sempre a sua vida. O próprio autor de certa forma também
o é enquanto parte da primeira geração de judeus nascidos após o Holocausto e
filho que nunca conseguiu cumprir as expectativas dos pais. Mesmo após a
viagem para os EUA, o seu legado persegui los à, ensombrando a sua relação, e ressurgindo, anos mais tarde, com o suicídio de Anja, a mãe e esposa. Tão forte quanto
o sofrimento dos judeus serem perseguidos com a máquina surreal de matança
alemã, que Spiegelmann
mostra com grande crueza e sobriedade, é o legado singular do Holocausto na sua
família e como uma memória de algo que não viveu diretamente é no entanto sua
, e como ela é capaz de pervadir totalmente o seu espaço central
afetivo.
ANTES DA REVISÃO:
Sobre
a obra e o autor
Maus
foi publicado em série entre 1980 e 1991 na revista Raw, dirigida
pelo autor e pela sua esposa Françoise Mouly, sendo compilada e
publicada em três volumes a partir de 1986 até 1991. O autor
Art Spiegelmann (baptizado
Itzhak
Avraham ben Zeevm
1948, em Estocolmo, Suécia) fez parte e criou nos anos 70 uma série
de revistas de comix, à margem do mundo mainstream da DC e da
Marvel; teve
estabilidade financeira trabalhando para a Topps, uma marca de
pastilhas elásticas para a qual contribuiu ao longo de 20 anos,
trabalhando
também dos anos 90 até aos inícios dos anos 2000 na New Yorker
enquanto ilustrador e ocasional ensaísta.
Foi
artista à revelia dos pais, que queriam que tivesse sido dentista;
sentiu ao longo da vida a sombra do irmão que morreu no Holocausto e
que nunca conheceu; a sua mãe suicida-se no dia em que regressa a
casa do seu internamento por um esgotamento nervoso induzido por um
consumo de LSD excessivo. Maus é a sua grande obra, embora tenha
produzido amplo trabalho de banda desenhada, ensaios, capas de
revistas.
Maus
é obra
fundamental para a consolidação do termo “graphic novel” e
para a credibilidade literária
da banda desenhada enquanto meio artístico que
não meramente juvenil. É
importante a contextualização
de Maus numa série de obras que dos finais dos 70 até meados,
finais dos anos 80, fazem parte de uma onda que levará a uma
crescente atenção académica ao mundo da banda desenhada,
nomeadamente o
primeiro livro de Will Eisner, “A contract with God” em 1978,
“Watchmen” de Alan Moore e Dave Gibbons
em 1986(embora reunido em 1987)
e “Dark Knight Returns” de Frank Miller, igualmente
editado em 1986. O
sucesso de vendas e junto dos críticos que“A Contract With God”
de Will Eisner gerou, levou à consolidação do termo graphic novel
para histórias em formato de banda desenhada que excediam as
habituais 32 páginas americanas ou 64 de maxi-size menos vulgares, e
contavam em formato mais extenso estórias que tinham em si temas
mais tradicionalmente associados ao romance ou ao conto.
Maus-
livro
de memórias da família Spiegelmann e da história do Holocausto:
Maus
é um retrato
altamente pessoal da relação que o autor tem com o seu pai,
servindo a sua interação
ao longo de uma série de visitas que o autor faz a casa do pai e as
histórias que este lhe conta
como base para se contar a história da
sua família,
intimamente ligada à história do Holocausto(de 84 membros de uma
família alargada sobreviveram 11 ao Holocausto).
Este
primeiro volume do livro conta a história do Vladek e Anja (pais do
autor) pelo ponto de vista de Vladek, começando nos anos anteriores
à deflagração da 2ª guerra mundial e terminando em 1944. A vida
tranquila antes do Holocausto, o conhecer e o apaixonar-se do casal,
a vida dos dois ao longo do Holocausto e os horrores por que
passaram, tentando evadir a captura dos alemães e o envio para os
campos de concentração são
os relatos principais da história apresentada.
O que distingue fundamentalmente o
Maus
de outras obras sobre relatos em primeira mão de sobrevivências
do Holocausto são duas coisas:o antropomorfismo das personagens, que
apresenta os judeus como ratos, alemães como gatos, polacos como
porcos e americanos como cães; e o plano do dia atual,
com o pai, sobrevivente, a passar a sua memória ao seu filho. como
herança coletiva
dupla: histórica
e familiar.
O
desconcertante
antropomorfismo
A
forma simples e direta dos desenhos da banda desenhada(pranchas
pequenas, desenhos grandes, a
preto e branco com grande contraste) permite uma referência visual
imediatamente apreensível pelo leitor, nomeadamente horrores do
Holocausto que requereriam dezenas de palavras para descrever
conseguem aqui ser
sentidas com a
sua carga emocional e o seu peso histórico intacto
nuns
rasgos telegráficos
desenhados,sem
recorrer a embelezamentos. É a realidade pura e crua- à exceção
de ser uma história sobre ratos, gatos e porcos. O antropomorfismo,
enquanto metáfora visual, remete de certa forma o leitor para o
universo da fábula, do desenho animado do Mickey Mouse, um universo
tradicionalmente infantil. Como consequência, ver os actos de
violência e barbárie, que nós sabemos serem experiências
reais e que
estam
ancoradas
nas vida
das pessoas
a quem estas memórias pertencem, exacerbam de forma desconcertante o
horror e o surreal do seu sofrimento. É também o sublinhar da
desumanização levada a cabo pelos nazis dos judeus e dos
polacos(apresentados na sua
propaganda como ratos e porcos) assim
como da
relação predatorial que os alemães impuseram sobre os judeus.
A
duplicidade da memória, o seu peso e o fardo do seu legado
Igualmente
desconcertante é a a
duplicidade do pai enquanto Vladek ,o sobrevivente heroico
do
Holocausto, mas também como Vladek,
o pai que acorda o
filho
de madrugada para que venha ter consigo
limpar
o telhado, o
pai que atira pela janela um casaco do filho por achar que já não
está em condições para o seu filho usar,
que apanha fios eléctricos
na rua para que não tenha que
os vir a comprar no futuro,
que tem um casamento sem qualquer tipo de romance em que rebaixa
constantemente a sua esposa, que é caracterizado por acumular todo o
tipo de tralhas em casa- enfim
o pai rabugento, desligado e
avarento(a certa altura o autor queixa-se no livro que o pai é
estereotípicamente
semita e a personalidade do pai corta um bocado com a imagem que ele
quer passar dele para o livro) com
quem o filho confessa várias vezes ao longo da obra não ter uma
relação minimamente estável. São aliás várias as vezes ao longo
do livro em que o filho se refere aos pais pelos nomes próprios (sem
ser no contexto da história dos pais no Holocausto),
referindo ainda que formou-se como artista a despeito dos pais, por ser uma
área em que sabia que o seu pai jamais quereria competir consigo
como acontecia sempre que o pai pedia ajuda ao filho numa qualquer
tarefa doméstica. Enfim,
às memórias de Vladek o sobrevivente judeu heroico
são justapostas as crónicas das suas ações (enquanto Spiegelmann
escreve o seu livro) como homem embirrento e avarento, pai distante e
antagónico, marido bruto e desinteressado, sobrevivente à morte do
seu filho primogénito, da sua primeira mulher e amor da sua vida e
àquilo que considerava ser a degeneração do seu filho vivo.
A
família e a memória que perpetua enquanto herança coletiva
parecem-me ser temas centrais no livro. A memória como herança
coletiva em
dois sentidos:
histórica
e familiar. A
memória como legado histórico
da família,
o legado como maldição pessoal
do pai e do filho, da sua relação e das suas vidas pessoais.
O
sacrifício familiar,
a desagregação dos laços familiares( quer
por
via dos primos e
vizinhos
que cooperavam com os nazis que
serão temas recorrentes ao longo das
memórias do pai, quer pelos relatos do autor da sua conturbada
relação familiar, particularmente com a história dentro da
história “Prisoner on the Hell Planet” que relata a reação do
autor e do seu pai ao suicídio da sua mãe)
são
como os ombros que carregam o peso das memórias de Vladek ao longo
do livro e que carregam a versão aqui desenhada pelo seu filho.
O
pai, figura central na obra, é simultaneamente personagem histórico
e familiar no épico trágico do Holocausto, que marcará para sempre
a sua vida. O
próprio autor de certa forma também o é enquanto parte da primeira
geração de judeus nascidos após o Holocausto e filho que nunca
conseguiu cumprir as expectativas dos pais. Mesmo
após a viagem para os EUA, o seu legado persegui los
à, ensombrando a sua
relação,
e
ressurgindo, anos mais tarde, com o suicídio de
Anja, a mãe e esposa.
Tão
forte quanto o sofrimento dos judeus serem perseguidos com a máquina
surreal de matança alemã, que Spiegelmann mostra com grande crueza
e sobriedade, é o legado singular do Holocausto na sua família e
como uma memória de
algo que não viveu diretamente
é no entanto
sua , e
como ela é
capaz de pervadir totalmente
o
seu espaço central afetivo.