quinta-feira, 15 de março de 2018

Retórica e ideologia

Quando falamos - emitimos um discurso - o que dizemos pode ser aproximado como um texto literário: o que julga dizer e o que, mesmo sem saber que o diz, diz.

Todos nós fazemos isso. Um exemplo: se alguém escrever: «Eu checrevo munto bem, purque estudei», há duas leituras: a que escuta o que a pessoa diz pelo 'conteúdo' (eu escrevo bem) e a que apercebe o que o texto também diz, pela 'forma': eu não sei escrever.

Outro exemplo é o já clássico, que felizmente virou piada: «Eu não sou racista mas...» Aqui podemos mesmo dividir o texto em duas partes, A e B. O «mas» geralmente é o gato com rabo de fora que põe em causa a afirmação com que a frase abre.

Por ideologia entenda-se uma constelação de valores. Por retórica entenda-se o modo como o texto se organiza.

Num sentido mais restrito, a ideologia é partidária, tal como a política é uma coisa «dos políticos» ou a retórica a arte de bem persuadir levada à excelência pelos Jesuítas.

No sentido que nos interessa, todos os textos se organizam retoricamente.

Tomemos o caso de um bêbedo de caricatura, bruto e com poucos estudos. Perguntemos-lhe o que é uma metáfora ou uma metonímia. Não sabe, a maior parte das pessoas não sabe, tal como nem grande parte dos alunos de literatura ou linguística sabem o que é um zeugma ou uma hipálage. Uma coisa, no entanto, é não saber definir, ou nem sequer o que é, outra muito diferente é não recorrer a esse arsenal à disposição de qualquer falante. E basta que esse hipotético bêbedo se zangue connosco para remoer: «Eu parto-te os cornos, meu ganda boi.»

O que, reconheçamos, é um bom uso da metáfora e da metonímia.

Aqui, um caso real com um político brasileiro, o sr. Bolsonaro. 

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