terça-feira, 13 de março de 2018

Balanço da aula 7 (12 de março)



Stalker. um cientista, um poeta e um místico entram num bar...

O que quer dizer «demasiado avançado para o seu tempo»?! Todos somos filhos do nosso tempo. Todos respondemos - melhor ou pior, mais prafrentex ou menos - ao espaçotempo que nos é dado viver.


Para 2ª 20: dois textos breves q.b.

A juntar a 'Pierre Menard', uma modesta proposta (1729) de Jonathan Swift. Aqui, em português, tradução de Helena Barbas, docente da FCSH. Quem quiser ler no original tem fácil acesso ao Projecto Gutenberg aqui.

«Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República

«É motivo de melancolia para aqueles que passeiam por esta grande cidade, ou que viajam pelo campo, verem nas ruas, nas estradas, e às portas das barracas, uma multidão de pedintes do sexo feminino, seguidas por três, quatro, ou seis crianças, todas em farrapos, a importunarem cada passante pedindo esmola. (...)»



Algumas questões: 
Que texto são estes?
Conto, ensaio, artigo de opinião, etc.?
Quais as ideias implícitas?
Concorda? Porquê?

segunda-feira, 12 de março de 2018

Sobre Maus, vol.1

1. Sobre a obra e o autor
Maus foi publicado em série entre 1980 e 1991 na revista Raw, dirigida pelo autor e pela sua esposa Françoise Mouly, sendo compilada e publicada em três volumes a partir de 1986 até 1991. O autor Art Spiegelman (baptizado Itzhak Avraham ben Zeevm 1948, em Estocolmo, Suécia) fez parte e criou nos anos 70 uma série de revistas de comix, à margem do mundo mainstream da DC e da Marvel; teve estabilidade financeira trabalhando para a Topps, uma marca de pastilhas elásticas para a qual contribuiu ao longo de 20 anos, trabalhando também dos anos 90 até aos inícios dos anos 2000 na New Yorker enquanto ilustrador e ocasional ensaísta. Foi artista à revelia dos pais, que queriam que tivesse sido dentista; sentiu ao longo da vida a sombra do irmão que morreu no Holocausto e que nunca conheceu; a sua mãe suicida-se no dia em que regressa a casa do seu internamento por um esgotamento nervoso induzido por um consumo de LSD excessivo. Maus é a sua grande obra, embora tenha produzido amplo trabalho de banda desenhada, ensaios, capas de revistas.
Maus é obra fundamental para a consolidação do termo “graphic novel” e para a credibilidade literária da banda desenhada enquanto meio artístico que não meramente juvenil. É importante a contextualização de Maus numa série de obras que dos finais dos 70 até meados, finais dos anos 80, fazem parte de uma onda que levará a uma crescente atenção académica ao mundo da banda desenhada, nomeadamente o primeiro livro de Will Eisner, A contract with God em 1978, Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons em 1986(embora reunido em 1987) e The Dark Knight Returns de Frank Miller, igualmente editado em 1986. O sucesso de vendas e junto dos críticos que A Contract With God de Will Eisner gerou, levou à consolidação do termo graphic novel para histórias em formato de banda desenhada que excediam as habituais 32 páginas americanas ou 64 de maxi-size menos vulgares, e contavam em formato mais extenso estórias que tinham em si temas mais tradicionalmente associados ao romance ou ao conto.
2. Maus  livro de memórias da família Spiegelman e da história do Holocausto
Maus é um retrato altamente pessoal da relação que o autor tem com o seu pai, servindo a sua interação ao longo de uma série de visitas que o autor faz a casa do pai e as histórias que este lhe conta como base para se contar a história da sua família, intimamente ligada à história do Holocausto(de 84 membros de uma família alargada sobreviveram 11 ao Holocausto).
Este primeiro volume do livro conta a história do Vladek e Anja (pais do autor) pelo ponto de vista de Vladek, começando nos anos anteriores à deflagração da 2ª guerra mundial e terminando em 1944. A vida tranquila antes do Holocausto, o conhecer e o apaixonar-se do casal, a vida dos dois ao longo do Holocausto e os horrores por que passaram, tentando evadir a captura dos alemães e o envio para os campos de concentração são os relatos principais da história apresentada. O que distingue fundamentalmente o Maus de outras obras sobre relatos em primeira mão de sobrevivências do Holocausto são duas coisas:o antropomorfismo das personagens, que apresenta os judeus como ratos, alemães como gatos, polacos como porcos e americanos como cães; e o plano do dia atual, com o pai, sobrevivente, a passar a sua memória ao seu filho. como herança coletiva dupla: histórica e familiar.
3. O desconcertante antropomorfismo
A forma simples e direta dos desenhos da banda desenhada(pranchas pequenas, desenhos grandes, a preto e branco com grande contraste) permite uma referência visual imediatamente apreensível pelo leitor, nomeadamente horrores do Holocausto que requereriam dezenas de palavras para descrever conseguem aqui ser sentidas com a sua carga emocional e o seu peso histórico intacto nuns rasgos telegráficos desenhados,sem recorrer a embelezamentos. É a realidade pura e crua- à exceção de ser uma história sobre ratos, gatos e porcos. O antropomorfismo, enquanto metáfora visual, remete de certa forma o leitor para o universo da fábula, do desenho animado do Mickey Mouse, um universo tradicionalmente infantil. Como consequência, ver os actos de violência e barbárie, que nós sabemos serem experiências reais e que estam ancoradas nas vida das pessoas a quem estas memórias pertencem, exacerbam de forma desconcertante o horror e o surreal do seu sofrimento. É também o sublinhar da desumanização levada a cabo pelos nazis dos judeus e dos polacos(apresentados na sua propaganda como ratos e porcos) assim como da relação predatorial que os alemães impuseram sobre os judeus.
4. A duplicidade da memória, o seu peso e o fardo do seu legado
Igualmente desconcertante é a a duplicidade do pai enquanto Vladek ,o sobrevivente heroico do Holocausto, mas também como Vladek, o pai que acorda o filho de madrugada para que venha ter consigo limpar o telhado, o pai que atira pela janela um casaco do filho por achar que já não está em condições para o seu filho usar, que apanha fios eléctricos na rua para que não tenha que os vir a comprar no futuro, que tem um casamento sem qualquer tipo de romance em que rebaixa constantemente a sua esposa, que é caracterizado por acumular todo o tipo de tralhas em casa- enfim o pai rabugento, desligado e avarento(a certa altura o autor queixa-se no livro que o pai é estereotípicamente semita e a personalidade do pai corta um bocado com a imagem que ele quer passar dele para o livro) com quem o filho confessa várias vezes ao longo da obra não ter uma relação minimamente estável. São aliás várias as vezes ao longo do livro em que o filho se refere aos pais pelos nomes próprios (sem ser no contexto da história dos pais no Holocausto), referindo ainda que formou-se como artista a despeito dos pais, por ser uma área em que sabia que o seu pai jamais quereria competir consigo como acontecia sempre que o pai pedia ajuda ao filho numa qualquer tarefa doméstica. Enfim, às memórias de Vladek o sobrevivente judeu heroico são justapostas as crónicas das suas ações (enquanto Spiegelmann escreve o seu livro) como homem embirrento e avarento, pai distante e antagónico, marido bruto e desinteressado, sobrevivente à morte do seu filho primogénito, da sua primeira mulher e amor da sua vida e àquilo que considerava ser a degeneração do seu filho vivo.
A família e a memória que perpetua enquanto herança coletiva parecem-me ser temas centrais no livro. A memória como herança coletiva em dois sentidos: histórica e familiar. A memória como legado histórico da família, o legado como maldição pessoal do pai e do filho, da sua relação e das suas vidas pessoais. O sacrifício familiar, a desagregação dos laços familiares( quer por via dos primos e vizinhos que cooperavam com os nazis que serão temas recorrentes ao longo das memórias do pai, quer pelos relatos do autor da sua conturbada relação familiar, particularmente com a história dentro da história “Prisoner on the Hell Planet” que relata a reação do autor e do seu pai ao suicídio da sua mãe) são como os ombros que carregam o peso das memórias de Vladek ao longo do livro e que carregam a versão aqui desenhada pelo seu filho.
O pai, figura central na obra, é simultaneamente personagem histórico e familiar no épico trágico do Holocausto, que marcará para sempre a sua vida. O próprio autor de certa forma também o é enquanto parte da primeira geração de judeus nascidos após o Holocausto e filho que nunca conseguiu cumprir as expectativas dos pais. Mesmo após a viagem para os EUA, o seu legado persegui los à, ensombrando a sua relação, e ressurgindoanos mais tarde, com o suicídio de Anja, a mãe e esposa. Tão forte quanto o sofrimento dos judeus serem perseguidos com a máquina surreal de matança alemã, que Spiegelmann mostra com grande crueza e sobriedade, é o legado singular do Holocausto na sua família e como uma memória de algo que não viveu diretamente é no entanto sua , e como ela é capaz de pervadir totalmente o seu espaço central afetivo.


ANTES DA REVISÃO: 


Sobre a obra e o autor

Maus foi publicado em série entre 1980 e 1991 na revista Raw, dirigida pelo autor e pela sua esposa Françoise Mouly, sendo compilada e publicada em três volumes a partir de 1986 até 1991. O autor Art Spiegelmann (baptizado Itzhak Avraham ben Zeevm 1948, em Estocolmo, Suécia) fez parte e criou nos anos 70 uma série de revistas de comix, à margem do mundo mainstream da DC e da Marvel; teve estabilidade financeira trabalhando para a Topps, uma marca de pastilhas elásticas para a qual contribuiu ao longo de 20 anos, trabalhando também dos anos 90 até aos inícios dos anos 2000 na New Yorker enquanto ilustrador e ocasional ensaísta. Foi artista à revelia dos pais, que queriam que tivesse sido dentista; sentiu ao longo da vida a sombra do irmão que morreu no Holocausto e que nunca conheceu; a sua mãe suicida-se no dia em que regressa a casa do seu internamento por um esgotamento nervoso induzido por um consumo de LSD excessivo. Maus é a sua grande obra, embora tenha produzido amplo trabalho de banda desenhada, ensaios, capas de revistas.
Maus é obra fundamental para a consolidação do termo “graphic novel” e para a credibilidade literária da banda desenhada enquanto meio artístico que não meramente juvenil. É importante a contextualização de Maus numa série de obras que dos finais dos 70 até meados, finais dos anos 80, fazem parte de uma onda que levará a uma crescente atenção académica ao mundo da banda desenhada, nomeadamente o primeiro livro de Will Eisner, “A contract with God” em 1978, “Watchmen” de Alan Moore e Dave Gibbons em 1986(embora reunido em 1987) e “Dark Knight Returns” de Frank Miller, igualmente editado em 1986. O sucesso de vendas e junto dos críticos que“A Contract With God” de Will Eisner gerou, levou à consolidação do termo graphic novel para histórias em formato de banda desenhada que excediam as habituais 32 páginas americanas ou 64 de maxi-size menos vulgares, e contavam em formato mais extenso estórias que tinham em si temas mais tradicionalmente associados ao romance ou ao conto.


Maus- livro de memórias da família Spiegelmann e da história do Holocausto:

Maus é um retrato altamente pessoal da relação que o autor tem com o seu pai, servindo a sua interação ao longo de uma série de visitas que o autor faz a casa do pai e as histórias que este lhe conta como base para se contar a história da sua família, intimamente ligada à história do Holocausto(de 84 membros de uma família alargada sobreviveram 11 ao Holocausto).
Este primeiro volume do livro conta a história do Vladek e Anja (pais do autor) pelo ponto de vista de Vladek, começando nos anos anteriores à deflagração da 2ª guerra mundial e terminando em 1944. A vida tranquila antes do Holocausto, o conhecer e o apaixonar-se do casal, a vida dos dois ao longo do Holocausto e os horrores por que passaram, tentando evadir a captura dos alemães e o envio para os campos de concentração são os relatos principais da história apresentada. O que distingue fundamentalmente o Maus de outras obras sobre relatos em primeira mão de sobrevivências do Holocausto são duas coisas:o antropomorfismo das personagens, que apresenta os judeus como ratos, alemães como gatos, polacos como porcos e americanos como cães; e o plano do dia atual, com o pai, sobrevivente, a passar a sua memória ao seu filho. como herança coletiva dupla: histórica e familiar.


O desconcertante antropomorfismo

A forma simples e direta dos desenhos da banda desenhada(pranchas pequenas, desenhos grandes, a preto e branco com grande contraste) permite uma referência visual imediatamente apreensível pelo leitor, nomeadamente horrores do Holocausto que requereriam dezenas de palavras para descrever conseguem aqui ser sentidas com a sua carga emocional e o seu peso histórico intacto nuns rasgos telegráficos desenhados,sem recorrer a embelezamentos. É a realidade pura e crua- à exceção de ser uma história sobre ratos, gatos e porcos. O antropomorfismo, enquanto metáfora visual, remete de certa forma o leitor para o universo da fábula, do desenho animado do Mickey Mouse, um universo tradicionalmente infantil. Como consequência, ver os actos de violência e barbárie, que nós sabemos serem experiências reais e que estam ancoradas nas vida das pessoas a quem estas memórias pertencem, exacerbam de forma desconcertante o horror e o surreal do seu sofrimento. É também o sublinhar da desumanização levada a cabo pelos nazis dos judeus e dos polacos(apresentados na sua propaganda como ratos e porcos) assim como da relação predatorial que os alemães impuseram sobre os judeus.

A duplicidade da memória, o seu peso e o fardo do seu legado

Igualmente desconcertante é a a duplicidade do pai enquanto Vladek ,o sobrevivente heroico do Holocausto, mas também como Vladek, o pai que acorda o filho de madrugada para que venha ter consigo limpar o telhado, o pai que atira pela janela um casaco do filho por achar que já não está em condições para o seu filho usar, que apanha fios eléctricos na rua para que não tenha que os vir a comprar no futuro, que tem um casamento sem qualquer tipo de romance em que rebaixa constantemente a sua esposa, que é caracterizado por acumular todo o tipo de tralhas em casa- enfim o pai rabugento, desligado e avarento(a certa altura o autor queixa-se no livro que o pai é estereotípicamente semita e a personalidade do pai corta um bocado com a imagem que ele quer passar dele para o livro) com quem o filho confessa várias vezes ao longo da obra não ter uma relação minimamente estável. São aliás várias as vezes ao longo do livro em que o filho se refere aos pais pelos nomes próprios (sem ser no contexto da história dos pais no Holocausto), referindo ainda que formou-se como artista a despeito dos pais, por ser uma área em que sabia que o seu pai jamais quereria competir consigo como acontecia sempre que o pai pedia ajuda ao filho numa qualquer tarefa doméstica. Enfim, às memórias de Vladek o sobrevivente judeu heroico são justapostas as crónicas das suas ações (enquanto Spiegelmann escreve o seu livro) como homem embirrento e avarento, pai distante e antagónico, marido bruto e desinteressado, sobrevivente à morte do seu filho primogénito, da sua primeira mulher e amor da sua vida e àquilo que considerava ser a degeneração do seu filho vivo.
A família e a memória que perpetua enquanto herança coletiva parecem-me ser temas centrais no livro. A memória como herança coletiva em dois sentidos: histórica e familiar. A memória como legado histórico da família, o legado como maldição pessoal do pai e do filho, da sua relação e das suas vidas pessoais. O sacrifício familiar, a desagregação dos laços familiares( quer por via dos primos e vizinhos que cooperavam com os nazis que serão temas recorrentes ao longo das memórias do pai, quer pelos relatos do autor da sua conturbada relação familiar, particularmente com a história dentro da história “Prisoner on the Hell Planet” que relata a reação do autor e do seu pai ao suicídio da sua mãe) são como os ombros que carregam o peso das memórias de Vladek ao longo do livro e que carregam a versão aqui desenhada pelo seu filho.
O pai, figura central na obra, é simultaneamente personagem histórico e familiar no épico trágico do Holocausto, que marcará para sempre a sua vida. O próprio autor de certa forma também o é enquanto parte da primeira geração de judeus nascidos após o Holocausto e filho que nunca conseguiu cumprir as expectativas dos pais. Mesmo após a viagem para os EUA, o seu legado persegui los à, ensombrando a sua relação, e ressurgindo, anos mais tarde, com o suicídio de Anja, a mãe e esposa. Tão forte quanto o sofrimento dos judeus serem perseguidos com a máquina surreal de matança alemã, que Spiegelmann mostra com grande crueza e sobriedade, é o legado singular do Holocausto na sua família e como uma memória de algo que não viveu diretamente é no entanto sua , e como ela é capaz de pervadir totalmente o seu espaço central afetivo.




A ler: Pierre Menard, autor do Dom Quixote

Jorge Luis Borges


Pierre  Menard,  autor do Quixote
A Silvina Ocampo

A obra visível que deixou este romancista é de fácil e breve enumeração. São, portanto, imperdoáveis as omissões e acréscimos perpetrados por Madame Henri Bachelier num catálogo falacioso que certo diário cuja tendência protestante não é segredo teve a desconsideração de infligir aos seus deploráveis leitores — embora estes sejam poucos e calvinistas, quando não mações e circuncisados. Os amigos autênticos de Menard viram com alarme esse catálogo e também com certa tristeza. Dir-se-ia que ainda ontem nos reunimos diante do mármore final e no meio dos ciprestes infaustos e já o Erro tenta deslustrar a sua Memória... Decididamente, é inevitável uma breve rectificação.
Consta-me que é facílimo recusar a minha pobre autoridade. Espero, no entanto, que não me proíbam de mencionar dois elevados testemunhos. A baronesa de Bacourt (em cujos vendredis inesquecíveis tive a honra de conhecer o chorado poeta) julgou por bem aprovar as linhas que se seguem. A condessa de Bagnoregio, um dos espíritos mais finos do principado do Mónaco (e agora de Pittsburgh, Pensilvânia, após o seu recente casamento com o filantropo internacional Simon Kautzsch, tão caluniado, ai!, pelas vítimas das suas desinteressadas manobras) sacrificou «à veracidade e à morte» (tais são as suas palavras) a senhoril reserva que a distingue e numa carta aberta publicada na revista Luxe concede-me igualmente o seu beneplácito. Estas nobres acções, creio eu, não são insuficientes.
Disse que a obra visível de Menard é facilmente enumerável. Examinado com o maior cuidado o seu arquivo particular, verifiquei que consta das peças seguintes:
a) Um soneto simbolista que apareceu duas vezes (com variantes) na revista La conque (números de Março e Outubro de 1899).
b) Uma monografia sobre a possibilidade de construir um vocabulário poético de conceitos que não sejam sinónimos ou perífrases de que se forma a linguagem comum, «mas objectos ideais criados por uma ,convenção e essencialmente destinados às necessidades poéticas» (Nîmes, 1901).
c) Uma monografia sobre «certas conexões ou afinidades» do pensamento de Descartes, de Leibniz e de John Wilkins (Nîmes, 1903).
d) Uma monografia sobre a Characteristica universalis de Leibniz (Mines, 1904).
e) Um artigo técnico sobre a possibilidade de enriquecer o xadrez eliminando um dos peões de torre. Menard propõe, recomenda, discute e acaba por rejeitar esta inovação.
f) Uma monografia sobre a Ars magna generalis de Ramon Lull (Nîmes, 1906).
g) Uma tradução com prólogo e notas do Livro da Invenção Liberal e Arte do Jogo de Xadrez de Ruy López de Segura (Paris, 1907).
h) Os rascunhos de uma monografia sobre a lógica simbólica de George Boole.
i) Uma análise das leis métricas essenciais da prosa francesa, ilustrada com exemplos de Saint-Simon (Revue des langues romanes, Montpellier, Outubro de 1909).
j) Uma réplica a Luc Durtain (que negara a existência de tais leis) ilustrada com exemplos de Luc Durtain (Revue des langues romanes, Montpellier, Dezembro de 1909).
k) Uma tradução manuscrita da Aguja de navegar cultos de Quevedo, intitulada La boussole des précieux.
l) Um prefácio ao catálogo da exposição de litografias de Carolus Hourcade (Nîmes, 1914).
m) A obra Les problèmes d'un problème (Paris, 1917) que discute por ordem cronológica as soluções do ilustre problema de Aquiles e da tartaruga. Surgiram até agora duas edições deste livro; a segunda traz como epígrafe o conselho de Leibniz «Ne craignez point, monsieur, la tortue», e remodela os capítulos dedicados a Russell e a Descartes.
n) Uma obstinada análise dos «costumes sintácticos» de Toulet (N. R. F., Março de 1921). Menard — recordo — declarou que censurar e louvar são operações sentimentais que nada têm a ver com a crítica.
o) Uma transposição em alexandrinos do Cimetière marin de Paul Valéry (N. R. F., Janeiro de 1928).
p) Uma invectiva contra Paul Valéry, nas Folhas para a Supressão da Realidade de Jacques Reboul. (Esta invectiva, diga-se entre parênteses, é o reverso exacto da sua verdadeira opinião sobre Valéry. Este assim o entendeu e a amizade antiga entre os dois não correu perigo).
q) Uma «definição» da condessa de Bagnoregio, no «vitorioso volume» — a locução é de outro colaborador, Gabriele d'Annunzio — que anualmente publica esta dama para rectificar os inevitáveis falseamentos do jornalismo e apresentar «ao mundo e à Itália» uma autêntica imagem da sua pessoa, tão exposta (pela própria razão da sua beleza e da sua actuação) a interpretações erróneas ou apressadas.
r) Um ciclo de admiráveis sonetos para a baronesa de Bacourt (1934).
s) Uma lista manuscrita de versos que devem a sua eficácia à pontuação[1].
Até aqui (sem outra omissão além de uns vagos sonetos de circunstância para o hospitaleiro, ou ávido, álbum de Madame Henri Bachelier) a obra visível de Menard, na sua ordem cronológica. Passo agora à outra: a subterrânea, a interminavelmente heróica, a ímpar. E também — ai das possibilidades do homem! — a inacabada. Esta obra, talvez a mais significativa do nosso tempo, consta dos capítulos nono e trigésimo oitavo da primeira parte do Dom Quixote e de um fragmento do capítulo vinte e dois. Sei que esta afirmação parece um dislate; justificar este «dislate» é o objectivo primordial desta nota[2].
Dois textos de valor desigual inspiraram a empresa. Um é aquele fragmento filológico de Novalis — o que tem o número 2005 na edição de Dresden — que esboça o tema da total identificação com um autor determinado. Outro é um desses livros parasitários que situam Cristo num bulevar, Hamlet na Cannebière ou Dom Quixote na Wall Street. Como todo o homem de bom gosto, Menard abominava estes carnavais inúteis, só aptos — dizia — para ocasionar o plebeu prazer do anacronismo ou (o que é ainda pior) para nos encantar com a ideia primária de que todas as épocas são iguais ou de que são diferentes. Mais interessante, embora de execução contraditória e superficial, achava ele o famoso propósito de Daudet: conjugar numa figura, que é o Tartarín, o Engenhoso Fidalgo e o seu escudeiro... Quem insinuar que Menard dedicou a sua vida a escrever um Quixote contemporâneo, calunia a sua brilhante memória.
Não queria compor outro Quixote — o que é fácil —, mas «o» Quixote. Não vale a pena acrescentar que nunca encarou a possibilidade de uma transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. A sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem — palavra por palavra e linha por linha — com as de Miguel de Cervantes.
«O meu propósito é simplesmente espantoso», escreveu-me a 30 de Setembro de 1934 de Bayonne. «O termo final de uma demonstração teológica ou metafísica — o mundo exterior, Deus, a casualidade, as for­mas universais — não é menos anterior e comum que o meu divulgado romance. A única diferença é que os filósofos publicam em agradáveis volumes as fases intermédias do seu labor e eu resolvi que se perdes­sem.» Com efeito, não resta um só rascunho que testemunhe este trabalho de anos.
O método inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os Mouros ou contra o Turco, esquecer a história da Europa entre os anos de 1602 e de 1918, ser Miguel de Cervantes. Pierre Menard estudou esse procedimen­to (sei que conseguiu um manejo bastante fiel do espanhol do sécu­lo XVII), mas rejeitou-o por fácil. Ou antes, por impossível!, dirá o leitor. De acordo, mas a empresa era de antemão impossível, e de todos os meios impossíveis para a levar a cabo este era o menos interessante. Ser no século xx um romancista popular do século XVII pareceu-lhe uma diminuição. Ser, de algum modo, Cervantes e chegar ao Quixote pareceu­-lhe menos árduo — por conseguinte, menos interessante — do que con­tinuar a ser Pierre Menard e chegar ao Quixote, através das experiências de Pierre Menard. (Esta convicção, diga-se de passagem, fê-lo excluir o prólogo autobiográfico da segunda parte do Dom Quixote. Incluir este prólogo seria criar outra personagem — Cervantes —, mas também si­gnificaria apresentar o Quixote em função dessa personagem e não de Menard. Este, naturalmente, recusou-se a essa facilidade.) «A minha em­presa não é difícil, no essencial», leio noutro local da carta. «Bastar-me­-ia ser imortal para a levar a cabo.» Confessarei que costumo imaginar que ele a terminou e leio o Quixote — todo o Quixote — como se o ti­vesse pensado Menard? Uma noite destas, ao folhear o capítulo XXVI — nunca tentado por ele —, reconheci o estilo do nosso amigo e como que a sua voz nesta frase excepcional: las ninfas de los rios, la dolorosa y húmida Eco. Esta conjunção eficaz de um adjectivo moral e outro físico trouxe-me à memória um verso de Shakespeare, que discutimos uma tarde:

Where a malignant and a turbaned Turk...

Porquê precisamente o Quixote?, dirá o nosso leitor. Esta preferên­cia, num espanhol, não teria sido inexplicável; mas é-o sem dúvida num simbolista de Nîmes, devoto essencialmente de Poe, que gerou Baudelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Edmond Teste. A carta já citada ilumina este ponto. «O Quixote», esclarece Menard, «interessa-me profundamente, mas não me parece, como direi?, inevitá­vel. Não posso imaginar o universo sem a interjeição de Poe: 

Ah, bear in mind this garden was enchanted!

ou sem o Bateau ivre ou o Ancient Mariner, mas sei-me capaz de imagi­ná-lo sem o Quixote. (Falo naturalmente da minha capacidade pessoal, não da ressonância histórica das obras.) O Quixote é um livro contin­gente, o Quixote é desnecessário. Posso premeditar a sua escrita, posso escrevê-lo, sem incorrer numa tautologia. Aos doze ou treze anos li-o, talvez integralmente. Depois reli com atenção alguns capítulos, os que não irei tentar por agora. Estudei igualmente os entremezes, as comédias, A Galateia, as Novelas Exemplares, os trabalhos sem dúvida laboriosos de Persiles e Segismunda e a Viagem do Parnaso... A minha lembrança geral do Quixote, simplificada pelo esquecimento e pela indiferença, pode muito bem equivaler à imprecisa imagem anterior de um livro não escrito. Postulada esta imagem (que ninguém em boa-fé me pode negar) é indiscutível que o meu problema é muito mais difícil que o de Cervan­tes. O meu complacente precursor não recusou a colaboração do acaso: ia compondo a obra imortal um pouco à la diable, levado por inércias da linguagem e da invenção. Eu contraí o misterioso dever de reconstruir li­teralmente a sua obra espontânea. O meu solitário jogo é governado por duas leis polares. A primeira permite-me experimentar variantes de tipo formal ou psicológico; a segunda obriga-me a sacrificá-las ao texto "ori­ginal" e a raciocinar de um modo irrefutável essa anulação... A estes en­traves artificiais tem de se juntar outro, congénito. Compor o Quixote nos princípios do século XVII era uma empresa razoável, necessária, por­ventura até fatal; nos princípios do xx, é quase impossível. Não foi em vão que transcorreram trezentos anos, carregados de complexíssimos factos. Entre os quais, para mencionar um único: o próprio Quixote.»
Apesar destes três obstáculos, o fragmentário Quixote de Menard é mais subtil que o de Cervantes. Este, de um modo grosseiro, opõe às fic­ções cavaleirescas a pobre realidade provinciana do seu país; Menard es­colhe como «realidade» a terra de Carmen durante o século de Lepanto e de Lope. Que espanholadas não teria aconselhado essa opção a Mauri­ce Barrès ou do doutor Rodríguez Larreta! Menard, com toda a naturali­dade, evita-as. Na sua obra não há nem ciganadas, nem conquistadores, nem místicos, nem Filipe II, nem autos-de-fé. Desatende ou proscreve a cor local. Este desdém indica um sentido novo do romance histórico. Este desdém condena Salambo, inapelavelmente.
Não menos assombroso é considerar capítulos isolados. Por exem­plo, consideremos o XXXVIII da primeira parte, «que trata do curioso discurso que fez Dom Quixote das armas e das letras». É sabido que Dom Quixote (tal como Quevedo na passagem análoga, e posterior, de La hora de todos) falha o pleito contra as letras e a favor das armas. Cer­vantes era um velho militar: a sua falha explica-se. Mas que o Dom Qui­xote de Pierre Menard — homem contemporâneo de La trahison des clercs e de Bertrand Russell — reincida nesses nebulosos sofismas! Ma­dame Bachelier viu nelas uma admirável e típica subordinação do autor à psicologia do herói; outros (nada perspicazmente) uma transcrição do Quixote; a baronesa de Bacourt, a influência de Nietzsche. A esta tercei­ra interpretação (que julgo irrefutável) não sei se me atreverei a acrescen­tar uma quarta, que condiz muito bem com a quase divina modéstia de Pierre Menard: o seu hábito resignado ou heróico de propagar ideias que eram o rigoroso reverso das preferidas por ele. (Relembremos outra vez a sua diatribe contra Paul Valéry na efémera folhinha super-realista de Jacques Reboul.) O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico. (Mais ambí­guo, dirão os seus detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.)
É uma revelação cotejar o Dom Quixote de Menard com o de Cer­vantes. Este, por exemplo, escreveu (Dom Quixote, primeira parte, nono capítulo):

«... la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir[3]

Redigida no século XVII, redigida pelo «engenho leigo» Cervantes, es­ta enumeração é um simples elogio retórico da História. Menard, em contrapartida, escreve:

«... la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir.»
A história, mãe da verdade: a ideia é espantosa. Menard, contem­porâneo de William James, não define a história como uma investigação da realidade, mas sim como a sua origem. A verdade histórica, para ele, não é o que aconteceu; é o que julgamos que aconteceu. As cláusulas fi­nais — «exemplo e aviso do presente, advertência do porvir» — são desafrontadamente pragmáticas.
Também é vivo o contraste dos estilos. O estilo arcaizante de Menard — estrangeiro mesmo — sofre de uma certa afectação. Não sucede o mesmo com o do precursor, que maneja com desenvoltura o espanhol corrente da sua época.
Não há exercício intelectual que por fim não seja inútil. Uma doutri­na filosófica ao princípio é uma descrição verosímil do universo; passam os anos e é um simples capítulo — quando não um parágrafo ou um no­me — da história da filosofia. Na literatura, esta capacidade final é ainda mais notória. O Quixote — disse-me Menard — foi acima de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão, e quiçá a pior.
Nada têm de novo estas comprovações niilistas; o singular é a deci­são que delas fez derivar Pierre Menard. Resolveu adiantar-se à vacuida­de que aguarda todas as fadigas do homem; lançou-se numa empresa complexíssima e de antemão fútil. Dedicou os seus escrúpulos e vigílias a repetir num idioma alheio um livro preexistente. Multiplicou os rascu­nhos; corrigiu tenazmente e rasgou milhares de páginas manuscritas[4]. Não permitiu que fossem analisadas por ninguém e cuidou para que não lhe sobrevivessem. Em vão procurei reconstituí-las.
Reflecti que é lícito ver no Quixote «final» uma espécie de palimpses­to, em que deverão transparecer os vestígios — ténues, mas não indeci­fráveis — da «prévia» escrita do nosso amigo. Infelizmente, só um se­gundo Pierre Menard, invertendo o trabalho do anterior, poderia vir exumar e ressuscitar essas Tróias...
«Pensar, analisar, inventar (escreveu-me também) não são actos anómalos, são a normal respiração da inteligência. Glorificar o ocasional cumprimento dessa função, entesourar antigos e alheios pensamentos, recordar com ingénua estupefacção o que o doctor universalis pensou, é confessar a nossa fraqueza de espírito ou a nossa barbárie. Todo o homem tem de ser capaz de todas as ideias e entendo que no porvir o será.»
Menard (porventura sem querer) enriqueceu por meio de uma técnica nova a arte estagnada e rudimentar da leitura: a técnica do anacronismo deliberado e das atribuições erróneas. Esta técnica de aplicação infinita insta-nos a percorrer a Odisseia como se fosse posterior à Eneida e o li­vro Le jardin du Centaure de Madame Henri Bachelier como se fosse de Madame Henri Bachelier. Esta técnica povoa de aventura os livros mais calmosos. Atribuir a Louis Ferdinand Céline ou a James Joyce A Imita­ção de Cristo, não é uma suficiente renovação desses ténues avisos espiri­tuais?
Nîmes, 1939.

 


[1] Madame Henri Bachelier enumera igualmente uma versão literal da versão literal que fez Quevedo da Introduction à la vie dévote de São Francisco de Sales. Na biblioteca de Pierre Menard não há vestígios de tal obra. Deve tratar-se de uma piada do nosso amigo, mal ouvida.
[2] Tive também o propósito secundário de esboçar o retrato de Pierre Menard. Porém, como posso ousar competir com as páginas áureas que me dizem que prepara a baronesa de Bacoun ou com o lápis delicado e pontual de Carolus Hourcade?
[3] «…a verdade, cuja mãe é a história, émula do tempo, depósito das acções, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do porvir».
[4] Lembro-me dos seus cadernos quadriculados, das sua negras rasuras, dos seus peculiares símbolos tipográficos e da sua letra de insecto. Ao pôr do Sol gostava de sair a passear pelos redores de Nîmes; costumava levar consigo um caderno e fazer uma alegre fogueira.






quarta-feira, 7 de março de 2018

Kitsch: qu'est-ce-que c'est?




O espírito 'camp'. «I'm marrying myself» dos Sparks.
Frank Zappa. Irmãos Catita. 

Policial: a máquina e a narrativa saturada

Quantas vezes não vimos já um detective sentado no seu escritório, contando na primeira pessoa que uma boazona loura lhe entrou pelo escritório adentro, toda ela pernas, num vestido vermelho que mostrava mais do que escondia, a perguntar com voz rouca e cheia de promessas que precisava que ele lhe resolvesse um caso?
«O meu marido desapareceu/a minha filha/as minhas jóias/peço-lhe discrição/o meu amante desapareceu/etc?
E ele responde: «São USD50$ por dia mais despesas»?
E ele tem chapéu e fuma e usa gabardina e tem «uma .22 no coldre» sobre o lado esquerdo da camisa, mesmo por cima do coração?

Dois filmes com estranhas semelhanças aqui

Exame - 20/6, sala B 0.6, 14h

O exame de melhoria e/ou final será dia 20 e não 18, conforme fora inicialmente anunciado. Quem tiver algum problema, contacte-me.